
Nosso homem está dormindo.
Nisso, o telefone começa a tocar. É Galvão Bueno, um cara importante nas rodas intelectuais. Liga seis vezes em menos de dez minutos. Certamente para pedir algo que Nosso homem já imagina o que é. Claro que Nosso homem não vai atender. Alguma coisa a idade lhe ensinou.
Um sonho se desmancha — é isso acordar? — e Nosso homem já não dorme mais. Ao levantar, cumprimenta a aranha do jardim pela formidável teia. (Deve ser horrível construir algo com tanto cuidado sem que ninguém tenha a decência de perceber.)
Reflete, enquanto mija, sobre quais malditos valores burgueses teriam corrompido o tesão da juventude. Rapazes não conseguem mais ser machos leais ao passo que moças já não parecem dispostas a acolher um amor leal de macho. Transa-se mal quando novo e nada quando velho; e de resto disfarça-se tais infortúnios com surradas utopias patrimonialistas. Por vezes se disfarça o tédio dobrando doses de açúcar, como se a doçura não fosse entediante. Por que tanto catolicismo, se já não creem no Cristo?
Nosso homem lembra do consenso da noite anterior: resolveu-se que detestaríamos por igual a burguesia e o proletariado. Ambos são consumistas vulgares, avessos à arte, além de entusiastas da autoridade. Ambos nos fuzilariam se tivessem a chance. Ocorre que detestamos a burguesia, mas amamos o perfume e as axilas bem-depiladas das burguesas. Ocorre que detestamos o proletariado, mas amamos o sorriso franco das proletárias que nos servem o prato do dia num restaurante barato. Daí que Nosso homem e seus compatriotas não veem nenhuma saída — a não ser perdoar a tirania e amar as filhas dos tiranetes. Deliberou-se também que, numa infografia imaginária, a Razão haveria de ser posta em seu devido lugar: 1) pouco acima da fúria cega, 2) abaixo da generosidade irresponsável, e 3) muito abaixo do amor incondicional. Grandes noites permitem verdades pequenas.
Galvão Bueno liga pela sétima vez. Nosso homem torna a ignorá-lo, pois está esquentando a água para o café e montando dois bons sanduíches. Não é um analfabeto. Sabe que seria leviano, imerecedor da educação que teve, se interrompesse ritual de tal importância.
Nosso homem nunca erra o café, nunca erra o sanduíche. É preciso uma amargura, um sofrimento de mulher frígida para errar o preparo de um alimento. Asseverar a excelência do primeiro trabalho do dia é algo que melhora o humor do Nosso homem, relaxa sua tês, devolve-lhe a sociabilidade.
Só depois disso, já revigorado para a luta contra os pequenos desgostos do cotidiano, Nosso homem retorna a ligação para Galvão. Ele confirma o que Nosso homem desconfiara ainda dormindo, quando as notas estridentes do aparelho entrecortaram sonos igualmente desafinados.
Vai ser um dia como outro qualquer na vida de Nosso homem. Outro verão desperdiçado. Ninguém se deixa acordar por um telefone impunemente.
[ epílogo / Uma mosca festeja os farelos do sanduíche sobre a mesa. Convidada a se retirar da residência de Nosso homem, cai na formidável teia de Araneus diadematus. A mosca vai ser o sanduíche das manhãs da aranha. Não fosse tão primariamente medrosa, se soubesse dialogar ou construir algo impressionante, talvez ainda estivesse entre nós.]
