Julho 23, 2009

O sopro de Louis Malle

“A guerra é um assunto sério demais para deixá-lo nas mãos dos militares.”
(Laurent Chevalier, retrucando o pai durante um almoço familiar)
“Você é estúpido demais, até para um fascista.”
(para um jovem burguês que alega patriotismo)
“Sacrilégio não me interessa. É como blasfêmia: significa que ainda crê.”
(para um colega coroinha interessado em rituais secretos)
“Enjoei do jazz antigo. É sempre a mesma coisa.”
(para um amigo, enquanto recolhe dinheiro para vítimas da guerra)
“Vou-me embora. A música é ruim.”
(ao chegar numa festa para a qual não foi convidado)
Vamos direto ao ponto: Laurent Chevalier — ou Laurent del Dongo, dependendo da hora, do local e do crime — é talvez a personagem adolescente mais complexa e memorável que o cinema nos deu. As aspas aí de cima são na verdade de seu criador, o grande Louis Malle, que escreveu e dirigiu O Sopro do Coração (Le souffle au coeur) em 1972.
Malle, que não era da turma da Nouvelle Vague mas é frequentemente associado a ela, trilhou caminho próprio no cinema. Temas tabus como o incesto e o suicídio foram tratados por ele com delicadeza e inteligência. Fez carreira nos EUA, onde filmou, entre outros, Atlantic City (1980) e Menina Bonita (1978), e onde morreu em 1995, de câncer.
O Sopro do Coração, que a Lume Filmes lança agora em DVD no Brasil (aleluia, aleluia!), é a porta de entrada perfeita para o denso universo do diretor francês. Quase 40 anos depois de seu lançamento, é um filme que impressiona pela exatidão dos diálogos, pela maneira crua e engraçada como retrata a juventude, pela tensão sexual do início ao fim.
Impressiona também por revelar como nos tornamos caretas: da primeira à última cena, O Sopro do Coração exibe um festival de situações improváveis no cinema “comercialmente viável” dos dias que correm. Temos ali, sem qualquer tratamento moral, adolescentes fumando, dirigindo e bebendo, transando prostitutas sem camisinha, nu frontal masculino, tensão homoerótica, “pecados” sem punição. A tal ponto que o relacionamento de Laurent com sua mãe (a suculenta Lea Massari) não é sequer uma ruptura, mas sim algo que se desenvolve naturalmente num contexto onde a transgressão é associada à construção do caráter.
E, em meio a tudo isso, as notas deliciosas de Charlie Parker e Dizzy Gillespie dão à narrativa uma atmosfera única, eternamente cool.
Laurent (interpretado de forma transcendental por Benoît Ferreux, sobrinho do astro Jean-Louis Trintignant) é um intelectual precoce, e é divertido observar como Malle joga frases de profundo significado político e filosófico na boca do garoto. O homenzinho magrelo e moleque, um riquinho mimado da Dijon de 1954, é um nerd do high-society. Porém sua fome de leitura e conhecimento não é saciadas com cultura pop, TV, quadrinhos e ficção científica, mas sim com jazz, História, política, alta literatura. A certa altura a mãe o adverte: “não leia tudo antes de viver suas próprias experiências”. Mãe é mãe.
Nenhum sistema corrompe o pensamento de Laurent, embora a educação católica e o fascismo europeu estejam sempre ali, a cortejá-lo. A autonomia intelectual deste jovem de 15 anos é a grande provocação deste filme. Talvez mais corrosiva que o próprio incesto que conduz a narrativa. E que, por fim, revela-se muito mais um exercício de liberdade do que uma perversão maluca — como é o caso do também excelente La Luna, de Bertolucci.
O Sopro do Coração, por fim, não é um título gratuito. É o nome de uma doença. Que aqui se mostra providencial.
Um filme para se guardar com carinho.
FICHA TÉCNICA
Título original
Souffle au coeur
Diretor
Louis Malle
Gênero
Drama
País/Ano
França / 1972
Elenco
Lea Massari, Daniel Gelin, Benoit Ferreux e Avi Ninchi.
Extras
Filmografia, biografia e Coleção Lume
Áudio
Francês
Legendas
Português e inglês
118 min. / COR
NTSC / REGIÃO ABERTA
Widescreen
Código de barra: 07898925907497
Tudo o que a escola não puder ensinar

Tudo o que a escola não puder ensinar

“A guerra é um assunto sério demais para deixá-lo nas mãos dos militares.”
(Laurent Chevalier, retrucando o pai durante um almoço familiar)

“Você é estúpido demais, até para um fascista.”
(para um jovem burguês que alega patriotismo)

“Sacrilégio não me interessa. É como blasfêmia: significa que ainda crê.”
(para um colega coroinha interessado em rituais secretos)

“Enjoei do jazz antigo. É sempre a mesma coisa.”
(para um amigo, enquanto recolhe dinheiro para vítimas da guerra)

“Vou-me embora. A música é ruim.”
(ao chegar numa festa para a qual não foi convidado)

*

Vamos direto ao ponto: Laurent Chevalier — ou Laurent del Dongo, dependendo da hora, do local e do crime — é talvez a personagem adolescente mais complexa e memorável que o cinema nos deu. As aspas aí de cima são na verdade de seu criador, o grande Louis Malle, que escreveu e dirigiu O Sopro do Coração (Le souffle au coeur) em 1972.

Malle, que não era da turma da Nouvelle Vague mas é frequentemente associado a ela, trilhou caminho próprio no cinema. Temas tabus como o incesto e o suicídio foram tratados por ele com delicadeza e inteligência. Fez carreira nos EUA, onde filmou, entre outros, Atlantic City (1980) e Menina Bonita (1978), e onde morreu em 1995, de câncer.

O Sopro do Coração, que a Lume Filmes lança agora em DVD no Brasil (aleluia, aleluia!), é a porta de entrada perfeita para o denso universo do diretor francês. Quase 40 anos depois de seu lançamento, é um filme que impressiona pela exatidão dos diálogos, pela maneira crua e engraçada como retrata a juventude, pela tensão sexual do início ao fim.

Impressiona também por revelar como nos tornamos caretas: da primeira à última cena, O Sopro do Coração exibe um festival de situações improváveis no cinema “comercialmente viável” dos dias que correm. Temos ali, sem qualquer tratamento moral, adolescentes fumando, dirigindo e bebendo, transando prostitutas sem camisinha, nu frontal masculino, tensão homoerótica, “pecados” sem punição. A tal ponto que o relacionamento de Laurent com sua mãe (a suculenta Lea Massari) não é sequer uma ruptura, mas sim algo que se desenvolve naturalmente num contexto onde a transgressão é associada à construção do caráter.

E, em meio a tudo isso, as notas deliciosas de Charlie Parker e Dizzy Gillespie dão à narrativa uma atmosfera única, eternamente cool.

Laurent (interpretado de forma transcendental por Benoît Ferreux, sobrinho do astro Jean-Louis Trintignant) é um intelectual precoce, e é divertido observar como Malle joga frases de profundo significado político e filosófico na boca do garoto. O homenzinho magrelo e moleque, um riquinho mimado da Dijon de 1954, é um nerd do high-society. Porém sua fome de leitura e conhecimento não é saciada com cultura pop, TV, quadrinhos e ficção científica, mas sim com jazz, História, política, alta literatura. A certa altura a mãe o adverte: “não leia tudo antes de viver suas próprias experiências”. Mãe é mãe.

Nenhum sistema corrompe o pensamento de Laurent, embora a educação católica e o fascismo europeu estejam sempre ali, a cortejá-lo. A autonomia intelectual deste jovem de 15 anos é a grande provocação deste filme. Talvez mais corrosiva que o própria paixão incestuosa que conduz a narrativa. E que, por fim, revela-se muito mais um exercício de liberdade do que uma perversão daninha — como é o caso do também excelente La Luna, de Bertolucci.

O Sopro do Coração, por fim, não é um título gratuito. É o nome de uma doença. Que aqui se mostra providencial.

Um filme para se guardar com carinho.

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(escrito originalmente para o site Movie)