
Quarta-de-Cinzas no Maleta. Pó somos e ao pó hemos de tornar.
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Uma Quaresminha para chamar de minha
Um jejum meu, seu, nos absteria do quê? Internet, e-mail, cerveja, TV? Comida e muié não valem (abster-se de comida e muié só tinha valor espiritual quando estas eram as únicas coisas legais que haviam no mundo).
Não é má idéia: 40 dias sem jornais, rádios e TVs. Fico sem saber o resultado do BBB8, se Obama e Hillary foram tragados por McCain, se o Guaratinguetá se mantém no topo da tabela do Paulista, se o glorioso Cardoso Moreira vai ser rebaixado no Rio, se o (meu) Social ganha dos grandes no Mineiro. Fico por fora das compras feitas com o cartão-demo/demonizado, fico para trás na corrida boquirrota da indignação (como dói ficar para trás). Perco a Berlinale, perco o Oscar!
É… Taí um grande sacrifício, pois não posso viver sem nada disso.
Quem consegue jejuar 40 dias no deserto?
Lembrar o Homem que – dizem – conseguiu talvez seja o possível a nosso alcance.
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Parêntese carola
Praticar a abstinência, segundo o Rosário Permanente, é privar-se de algo, não só de carne: “Se temos o hábito diário de assistir televisão, fumar, etc, vale o sacrifício de abster-se destes itens nesses dias. A obrigação de se abster de carne começa aos 15 anos. A obrigação de jejuar, limitando-se a uma refeição principal e a duas mais ligeiras no decurso do dia, vai dos 21 aos 59 anos. Quem está doente (e também as mulheres grávidas) não está obrigado a jejuar.”
O sentido original da penitência, ao contrário dos que vêem nisso um certo exibicionismo de fé cega/idiotizada (como eu?), é nobre: ”inclina o pecador a detestar o pecado, a repará-lo dignamente e a evitá-lo no futuro.”
São Paulo que disse. Não é à toa que é tricampeão mundial.
(faltei às aulas do Catecismo, mas São Gogol há de me redimir)
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(Ademais, britânicas preocupações)
Tô de saque cheio de tanto saco no governo. Tô trocando palavras por migalhas – o que faz de mim um jornalista-padrão/padronizado (huhuhu).
No rádio disseram que essa praga de cartão corporativo foi um mecanismo criado para burlar o falso moralismo que achata alguns salários oficiais, como por exemplo o do presidente da República.
O salário do nosso chefe de Estado anda na casa dos 9 mil mensais, de fato menos de um terço dos rendimentos de médios executivinhos-chefes-de-escritório (CEOs), e quase todo mundo acha ”noffa, novimil pra comer e viajar de graffa??”. Ante tanta “pressão popular”, o jeito foi dar um jeitinho: Ourocard Corporative Infinite, para FHC e além.
Jeitinho que saiu do controle, visto que nada no Brasil é fiscalizado. Nem pode ser: de prazeres ilícitos a fraudes trabalhistas e fiscais, todo bom cidadão tá metido em alguma irregularidade por aí. Só o Eurípedes Alcântara e o Lauro Jardim são puros.
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Brasil que não conseguiu resolver seus privilégios mais grotescos, como super-aposentadorias e salário vitalício para filhas solteironas de militares, heranças intocáveis, etc etc, e nem conseguirá. Falar de privilégios no Brasil é mexer com os pilares da nação, com o seio das famílias, com os brasões da pátria! Num belo dia do passado, FHC bradou contra mamadores de tetas. Quase foi linchado (“FHC diz que aposentado antes dos 50 é ‘vagabundo’”, manchete da Folha de S. Paulo em 12/5/1997)…
Daí talvez os eternos chiliques com os sintomas da nossa doença, enquanto a origem das enfermidades é cirurgicamente desconversada. Numa recente reportagem vejal com o “raio-X” dos emergentes da economia global, entre os “males” do Brasil simplesmente não constava “Desigualdade Social”… Veja você.
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Lembremos o watergate da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Na moita, a tetéia consome mais recursos do que todo o Congresso norte-americano em Washington. Isso com um Jequitinhonha, 4º mundo, logo ali. “Presidente da ALMG ganha mais do que Bush” — eis a explosiva e gloriosa manchete do Estado de Minas há dez anos. O mundo caiu, deputadinhos se desculparam na TV, o jornal ganhou Prêmio Esso de Reportagem, e depois de alguns meses tudo voltou a ser mineiramente como antes.
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No fim, pode ser que a mamata generalizada em todos os escalões de todos os governos não reflita nossa fiscalização precária, mas apenas espelhe o que o eleitorado deseja para si.
Algum existencialista deve ter dito e demonstrado que a condição/maldição humana é que o mundo em que vive é o mundo que almeja – ou aceita.
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Parece que os existencialistas adoravam dar xeque-mate nos Indignaldos e nos resmunguentos.
Mas condenar os homens à Escolha, como fez um deles, talvez tenha sido crueldade demais.
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E dá-lhe preocupações inglesas, dá-lhe discursos em almoços e cafezinhos, abaixo as contribuições provisórias, que vergonha os cartões corporativos. Quando já desistimos de discutir e mudar o que de fato nos diria respeito: a natureza injusta e exploradora de nossas relações.
Além de um desprezo secular pelo que juristas entendem como “pessoa humana”.
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Imigrante amarelo. Um escorpião pisoteado na calçada do Automóvel Clube, na Afonso Pena. Quem o trouxe que o leve de volta. Ou será que ele morava por ali sem ninguém saber? Terá ele, acuado pela vida e ciente de seus limites, cometido suicídio (escorpiões podem fazer isso, vi no Animal Planet)? Alguém psicografe este “inseto” – assim chamado pelos repórteres na TV.
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Ano do Rato, Dia 4
O ano chinês começou quinta, dia 7. Ele também é seu amigo imaginário.
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Disparos pelo mundo
Duas coisas sobre as melhores fotos do ano, segundo o júri do World Press Photo:
1. A foto considerada a melhor do ano, interpretada como “a exaustão de um homem e uma nação”, não está meio fora de foco não? Tudo bem, é fantástica assim mesmo.
2. Essa foto de Benazir Bhutto é uma forma de nudez: subverte a burqa ao mostrar nariz e lábios e esconder os olhos de uma mulher.
No mais, guerra e miséria pra todo lado.
(O World Press – não confundir com WordPress – pede que as imagens não sejam reproduzidas sem autorização. Como sou civilizado, dou os links)
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O Sistema é mau. Nossa sorte é que ele é burro.
5 Comentários
Fevereiro 10, 2008 às 7:39 pm
O escorpião foi vítima da quaresma!
Desconto de R$0,01 é um super-hiper-mega-maxi-desconto!!!
ALEA JACTA EST
N.E: Eu banalizei essa frase sete anos antes de você.
Fevereiro 10, 2008 às 10:01 pm
O homem moderno se dedica perseverante ao fim de viver o restante da vida no deserto. Pq ele haveria de se assustar com míseros 40 dias?
N.E.: Por sua acurácia, esse comentário anula o de cima.
Fevereiro 11, 2008 às 12:54 am
Ter um celular com câmera fotográfica realmente faz falta.
N.E.: Pô. E para o olhar atento do fotógrafo, nada?
Fevereiro 11, 2008 às 9:32 am
Agora D. Anete pode vender uma gota à menos de perfume extraído de flores para então poder julgar o tomate inapropriado que viria servir de alimento para sua família.
N.E.: Mandaram-me perguntar se tás citando o Ilha das Flores.
Fevereiro 12, 2008 às 2:44 pm
Ótimo, Henrique
Adoro saber que conheco pessoas inteligentes e que elas nao precisam falar alemao..
N.E.: Dizem que a vida é muito curta para se aprender alemão.