Abril 14, 2008...1:29 am

Mundo cão, arte cã

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Habacuc, anticristo

 

Há quem diga que é costarriquenho, há quem diga que é nicaragüense, não se pode confiar em mais nada atualmente. Fato é que Guillermo Vargas, o Habacuc, reinvidica o posto de anticristo ao colher um cão abandonado nas ruas de Manágua e expô-lo numa galeria de arte.

 

E expô-lo da seguinte maneira: atado a uma corda, sem comida e água, até que o animal morra de inanição.

 

A “Exposição Nº 1”, que move abaixo-assinados e palavrões em todos os idiomas pela web afora, parece ter sido realizada em agosto de 2007, na capital nicaragüense. 

 

Habacuc teria dito (não se pode confiar em mais nada atualmente) que sua obra foi uma homenagem a Natividad Canda, compatriota morto após ser atacado por um cão rottweiler em uma oficina em Cartago. “Me reservo o direito de decidir se é certo ou não que o cachorro morra. O importante para mim é a hipocrisia das pessoas: um animal assim se converte em foco de atenção quando o coloco em um lugar onde as pessoas vão ver arte, mas não quando está envolvido na morte de um homem, como aconteceu com Natividad Canda”. Se ele realmente disse isso (aprendi a não julgar pessoas por falas editadas), é certo que trata-se de um bobão.

 

Convidado para repetir a instalação na Bienal Centroamericana Honduras 2008, o instalador, bem como os curadores (e até o público!) da Bienal são alvos de xingamentos e protestos. Pelo Google, chuva de reações imediatas e não muito bem fundamentadas. Compreende-se a revolta, mas hominhos e respectivas têm lá alguma autoridade para arbitrar sobre o que deve ou não ser exposto numa galeria de arte?

 

E ainda vetar nomes?

 

*

 

Soube dessa história por um e-mail enviado pelo meu pai com o seguinte texto:

  

“Um sobrevivente sociopata cristão ocidental assassina um cão em praça pública. O ato é catalogado como arte pela sociedade em suas engrenagens culturais. Então não deve existir nem arte nem indústrias culturais se poucos sabem a diferença entre arte e meios para pagar contas no fim do mês. Ou deve?

 

Podemos fingir ignorar essa falência, cuidar do jardim, fugir pro mato. Nós, que fomos induzidos a se achar artistas, a querer levar o dia vendo, vivendo e se for de bom alvitre também fazendo coisas bonitas, com vontade de diminuir o que entendemos como atmosfera de brutalidade gratuita.

 

Mas a sociedade não pode ser ignorada. Ela está concretando nossos jardins e pondo fogo no mato. Com cada vez mais mecanicidade. Então, a gente deve tentar ou consertar ou nos vermos livres dessa sociedade, neste caso eliminando-a ou a nós mesmos.

Tentar consertar me leva à idéia de ver criado um conselho cujo discurso tenha de forma natural irradiação que leve a amplo peso político. Começando pela renda mínima: por que o ser humano ainda é obrigado a trabalhar por comida e cama se acumulamos riquezas há doze mil anos?”

 

No que fora precedido pelo artista plástico Sérgio Nunes:

 

“Não é à toa que me desinteressei de visitar esse tipo de evento doentio (bienais de arte, etc.) há muitos anos. o que se vê nais bienais de alguns anos para cá é de dar revolta.”

 

Mas, mas…Mas!

 

Cínico que sou, não consegui o ódio suficiente para assinar a petição que corre junto com os e-mails. Prefiro crer que existe algum critério na curadoria das exposições, que não se trate de um bando de cocainômanos inconseqüentes.

 

E ademais só tenho a perder engrossando a fúria do mundo contra o artista: num fórum em inglês, por exemplo, alguém associava o abuso contra o cão às “tradições latinas de não respeitar direitos humanos”. Tá vendo? Indignação demais, compreensão de menos… Sempre sobra para os baianos, que no caso somos nós.

 

Habacuc, ainda que com todos os ingredientes de um trote internético — daquelas coisas que testam a credulidade e a preguiça dos internautas — me soa um ativista político de segunda (“terrorista”? Escolha seus nomes) metido no mundo da arte. Sobreviverá ao linchamento, sairá dele com vida? Suas obras, pelo jeito, não (foi uma piada; seja gentil e sorria).

 

Que Habacuc tenha sofrido junto com esse cão, que esta tenha sido uma decisão difícil. Mas as fotos de um homem gordo e sorridente, referentes a sua pessoa, são desanimadoras.

 

 

Charge do blog Arnjuice-Not art.

 

* * *

 

Já faz uns dez anos que o único cão com que me preocupo é o de Clarice Lispector, do conto “O Crime do Professor de Matemática”. Não poderei salvar nem me compadecer de todos os cães do mundo (na zoonose mesmo riscam uns 100 por dia, em nome da saúde pública), mas posso cuidar dos que confiarem em mim.

 

A esses, não poderei faltar.

 

 

 

 

 

 

 

9 Comentários

  • ‘que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros. são iguais a nós.’

    isso é Platão, mas tá citado em ‘A Caverna’, do Saramago. lá também está o Achado, cãozinho simpático, tão cativante quanto a Baleia, do Graciliano.

    eu acho que o prisioneiro desta cena é melhor do que nós. todos os cães merecem o céu. a Baleia achou um bocado de preás no céu.

    N.E.: Subscrevo o apócrifo, já que ninguém o fez.

  • Ai, ai. mais uma arte arteira.

    me lembrou uma outra que vi dia desses… veja aí:
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2005/07/050727_torneiracc.shtml

    Por mais que uma apele pra dózinha… as duas seguem a mesma linha do politicamente incorreto pra ganhar visibilidade, (e se propõem engajadas ao mesmo tempo), entre fatalista/revelador(?), (ja que cães vagabos e aguinhas se vão todos os dias).

    Já tá mais que na hora de aparecer por aí o fagocitoartista ou a canibalarte… Onde a criação estivesse na eliminação de criadores por outros criadores.

    Pagaria pra ver um Habacuc encoleirado sem água e sem comida.

    N.E.: Pagaria quanto? (se hay procuras, hay ofertas).

  • ops! lá em casa meu nome já sai automaticamente, donde postei, não. esqueci de assinar acima, tomo as palavras de volta, opá!

  • Qual o limiar entre arte pós-moderna e sensacionalismo, nesse caso? E a exposição de cadáveres dilacerados também não gerou polêmica?

    O cão de rua iria sobreviver quanto tempo, à mercê do dia-a-dia nicaraguense?

    E se fosse uma criança que estivesse na rua, faminta, a atenção seria a mesma? Já que aqui a cena é comum e natural dos países ainda do terceiro mundo…

    Mais uma vez: ALEA JACTA EST

    N.E.: Não…Não…Nããããão…

  • já faz algum tempo que o único cão com o qual me preocupo é o que vive dentro de mim.

    se bem que talvez, pelo sexo feminino, seja uma cadela.

    bom, mas não vem ao caso discutir o sexo dos cães mesmo…

    N.E.: uma cã e não se fala mais nisso.

  • tadinhu do cachorro…. nao tem nada com isso e vai morrer de fome

    n.e.: viverá para sempre em nossos corações.

  • Mais um artista(?) brincando de Deus. Esse, porém poderia ser um pouco mais corajoso e, fazendo um paralelo com a body art dos anos 70, poderia deixar a ele mesmo encarcerado na galeria, ao sabor do ar condicionado, sem comida e sem água. Mas isso não lhe traria mais fama do se praticasse tal ato com animais de outra espécie. Não seria comovente, afinal nós, seres humanos, desprezamos nossa propria espécie. Porém sabemos administrar brilhantemente uma campanha publicitária.

  • es um filho da puta

  • deviam te fazer o mesmo e morreres de podre.

    se isso é arte es o pior artista qe Ja vi.

    MATA TE E DEIXA VIVER OS OUTROS!!!


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