Abril 21, 2008...3:38 pm

Convidado: Walter J. Kovacs

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A cidade tem medo de mim.

Do diário de Rorschach

Torrentes desafinadas anunciam o outono do novo ano. A década acabou e uma juventude envelhecida não tem o que gritar. Nem sonho que não caiba num sonho de consumo.

O presidente é fofo e o País brilha, diz o jornal inglês. Janotas e calhordas resmungam no aeroporto e comungam na missa do cardeal televisivo e dos concílios midiáticos.

Uma melancólica banda de rock esteve na cidade. A cidade tem medo dela — e de tudo mais que trespasse o imediato sentido das evidências.

(”É uma queda e tanto”).

* * *

Nos Hospitais, entro num ônibus verde para ganhar alguns minutos rumo a Downtown.

Num banco sujo rumino mentalmente investigações passadas e futuras. Deixo raciocínios em ponto morto, psicografo os ectoplasmas do fim da tarde.

O motorista desliga o motor. E então percebo que se passaram dez minutos sem que o ônibus saísse do lugar.

Desço e vou andando sem pressa. Um dólar deixado num ônibus parado.

Apenas outra tarde de sexta.

* * *

Há 99 anos, o Le Figaro publicava o Manifesto Futurista:

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade.

2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta.

3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo ginástico, o salto mortal, a bofetada e o soco.

4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre adornado de grossos tubos como serpentes de fôlego explosivo… um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Somotrácia.

5. Nós queremos cantar o homem que está na direção, cuja haste ideal atravessa a Terra, arremessada sobre o circuito de sua órbita.

6. É preciso que o poeta se desgaste com calor, brilho e prodigalidade, para aumentar o fervor entusiástico dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza senão na luta. Nada de obra-prima sem um caráter agressivo. A poesia deve ser um assalto violento contra as forças desconhecidas, para intimá-las a deitar-se diante do homem.

8. Nós estamos sobre o promontório extremo dos séculos!… Para que olhar para trás, no momento em que é preciso arrombar as portas misteriosas do impossível? O tempo e o espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, já que nós criamos a eterna velocidade omnipresente.

9. Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor dos anarquistas, as belas idéias que matam, e o menosprezo à mulher.

10. Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.

11. Nós cantaremos as grandes multidões movimentadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela revolta; as marés multicoloridas e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; a vibração noturna dos arsenais e dos estaleiros e suas violentas luas elétricas; as estações glutonas comedoras de serpentes que fumam; as usinas suspensas nas nuvens pelos barbantes de suas fumaças; as pontes para pulos de ginastas lançadas sobre a cutelaria diabólica dos rios ensolarados; os navios aventureiros farejando o horizonte; as locomotivas de grande peito, que entoucinham os trilhos, como enormes cavalos de aço freados por longos trilhos, e o vôo deslizante dos aeroplanos, cuja hélice tem os estalos da bandeira e os aplausos da multidão entusiasta.

(concordo em parte)

* * *

O crepúsculo fede a fornicação e más consciências

Mataram uma garotinha na Zona Leste, os canalhas.

São fracos, incapazes de cuidar de alguém ou de criar alguém mais forte do que eles.

São também vaidosos, assoberbados, e se acham bons demais para seus filhos.

São covardes. Abandonam e humilham quem os amam incondicionalmente. E num acesso de “fúria”, são capazes de matar quem não tem como se defender. Pois não sabem o que é fúria de verdade.

Acima de tudo são pouco inteligentes. Deixam um rastro de lambança da hora que acordam até o momento em que são pegos e tentam correr para o papai.

Em frente à delegacia, bêbados, serventes e desocupados pedem mais sangue. Escória.

A cidade está morrendo de hidrofobia. Será que só consigo limpar a baba da sua boca? 

* * *

Não será aqui, neste ambiente decadente, que eu terei uma epifania.

Um rato olhou para mim. Parecia dizer:

“Mas isso é uma epifania”.

3 Comentários

  • Quo vadis?

    Será que o editor deste blog, vulgo HMilen, vive numa eterna fantasia onde as HQ’s compõem a realidade e a nossa “realidade” compõe uma HQ?

    É fresquinho por que vende mais ou vende mais por que é fresquinho?

    Oncôtô? Poncovô?

    São meras quimeras…

    Eu quase li “epitáfio” no último parágrafo…

    “O problema de nosso tempo é que o futuro já não é como costumava ser” Paul Valèry

    N.E.: Para onde vais, ateu blasfemo?

  • certa feita, rorschach foi capturado pela polícia. diante da satisfação de outros encarceirados em vê-lo ali, ele avisa algo como: ‘pensam que estou preso com vocês e não percebem que vocês é que estão presos aqui comigo.’

    haha! cabra bom.

  • We love the city because it lets us down,
    We love the city NOT the suburbs that surround.

    We love all the dirty things, that lead us to think, that maybe true love could be found.

    We love the city because its how we live,
    We love the city cause it never loves us back.

    We love it all because sometimes, even though they’re hard to find, it contains all the virtues we lack.

    N.E: Hefner, para os não-iniciados.


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