Maio 4, 2008...11:29 pm

Enfim, algo realmente sério nos jornais…

Ir aos comentários

Entrevista do filósofo Javier Esteban ao jornal espanhol La Vanguardia, em março deste ano. Chamaram-na "Filósofo defende o direito de ficar bêbado". ]

*
Ele tem 42 anos. Nasceu e vive em Madri. Licenciado em Filosofia e Direito, dirije a revista universitária “Geração XXI”. É casado e tem duas filhas, Alma (10) e Sol (8). É um excêntrico de centro. É sufi: caminha para onde caminha o amor. ”O poder combate a embriaguez”, ele diz.

O que é a embriaguez?
Uma expansão da consciência que descortina os véus que ocultam a realidade.

Desde quando ela existe? 
Desde sempre. Até os animais se drogam com substâncias naturais, com frutos fermentados… Formigas, cabras, pássaros, macacos… Todos se extasiam e brincam!

Então nós somos como os animais?
Não, eles agem por um determinismo instintivo, mas nós temos liberdade! Liberdade para a embriaguez. Liberdade para experimentar com a nossa consciência. 

Liberdade para nos drogarmos? 
É o uso dessa liberdade que nos torna humanos! O direito à embriaguez, portanto, é um direito humano fundamental. 

Quem é que coíbe o direito humano à embriaguez, em sua opinião?
A Igreja católica e o Estado (igreja laica), que querem fiscalizar a nossa consciência.

Castigando os motoristas bêbados?
Não, eu não me oponho a sancionar as condutas que são perigosas para terceiros. Mas critico o fato de que estão boicotando o autocontrole que temos de nossa consciência. 

Desde quando isso acontece?
Começou com a destruição do templo grego de Eleusis, no século 4 d.C.

Agora você foi longe!
Esteban – Desde o ano de 1.500 a.C., no contexto dos mistérios eleusinos, acontecia um ritual de embriaguez que cada grego vivia uma vez na vida, e isso lhes abria as portas da consciência. 

Em que consistiam esses mistérios? 
Eram rituais que aconteciam à noite. Em comunhão coletiva, eles ingeriam um enteógeno. 

O que é um enteógeno?
A palavra significa “deus existe dentro de mim”. É uma substância psicoativa capaz de induzir a uma experiência extática de unidade com o cosmos. Uma vivência da divindade.

Que substância era ingerida em Eleusis?
Uma sopa de cereal chamada “kikeon”, que continha cornelho de centeio, um fungo com uma substância psicoativa idêntica ao LSD, o enteógeno mais poderoso conhecido.

O que acontecia então? 
Cada um vivia a sua própria experiência de consciência expandida. Símbolos eram mostrados e cenas eram representadas para guiar o indivíduo ao autoconhecimento. 

Era uma embriaguez ritualizada? 
Sim, fazia parte do sistema, em benefício da livre consciência de cada indivíduo. Isso foi varrido, destruído. Hoje sentimos falta disso, e nossos jovens, ignorantes, acabam causando danos a si mesmos em suas irrefreáveis tentativas de embriaguez.

Quem destruiu esse ritual? 
Os bárbaros e os monges cristãos nestorianos, no século 4 d.C. A cultura ocidental ficou sem referência de embriaguez. 

Temos o vinho, o álcool… 
Não são enteógenos, são muletas úteis para nossas vidas insatisfatórias, escravizadas pelo rendimento econômico. E, em vez de expandir a consciência, a deixam turva. 

Um pouco de álcool pode cair muito bem. 
A verdade é que o veneno está na dose, como diziam os gregos. 

Que personagens ilustres sabiam disso? 
Toda a obra de Platão é uma crônica de embriaguez! Aqueles filósofos, assim como os xamãs, chegavam ao êxtase, assim também como os druidas e depois as bruxas, ou até mesmo os místicos, ébrios sem substâncias, que tanto inquietaram a Igreja. O poder estabelecido sempre combateu essas pessoas!

Por que motivo? 
Não há nada mais dissolvente que o livre acesso à própria consciência! Por isso Nixon arremeteu contra os profetas do LSD (Hoffman, Junger, Michaux, Wason, Huxley, Kesey, Leary…), cujas experiências alimentaram o feminismo, a militância ecológica, o pacifismo, os direitos civis… Nixon declarou guerra à consciência: quando começou a guerra contra a droga, começou a grande catástrofe. 

Que catástrofe? 
Milhões de presos, dezenas de milhares de mortos, narcoditaduras, a terceira maior fonte de renda do mercado negro no mundo, camponeses com fome, multiplicação de politoxicomanias… A proibição da droga foi o maior erro do século 20!

Você propõe eliminar a proibição? 
Por acaso a proibição evitou que nossas crianças estejam se metendo com drogas aos 13 anos de idade? Não! Pelo contrário: a proibição presenteia as máfias com um poder imenso. 

Um político colombiano já me disse isso… 
Muitos governantes já reconhecem o fracasso da praga proibicionista. 

Você faz a apologia das drogas?
Das drogas não, mas da embriaguez. Qualquer pessoa maior de idade deveria poder consumir qualquer substância (com o limite único da liberdade de terceiros). E, veja só, Silicon Valley nasceu da embriaguez de pessoas como Bill Gates. Este sim admite que fumou alguns baseados!

O que você diria a Zapatero? 
Que o direito à embriaguez é um direito inerente à liberdade de consciência, e que a lei deveria protegê-lo.

*

Eloise De Vylder traduziu este texto para o UOL — onde o li. Teje creditado.

8 Comentários

  • Lema de HMilen: “Eu bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe, está morrendo…” :D

    Lema de Javier Esteban: “Que o direito à embriaguez é um direito inerente à liberdade de consciência, e que a lei deveria protegê-lo.” :O

    N.E.: Errou. Meu lema é “Cada um com seus pobres lemas.”

  • Sempre bom quando alguém nos ajuda a aliviar meia dúzia de culpas…

  • Ooops! O anônimo “soy Yo”!

  • Há um ditado irlandês que diz: “Quem não bebe não vê o mundo girar.”

    É fato que, ao nos abstermos de consumir certas substâncias, estamos na verdade limitamos as nossas possibilidades de percepção. Claro que o preço por algumas dessas possibilidades é alto demais. Mas cabe a cada um julgar se a experimentação vale ou não o risco.

    Penso que o Estado, ao me impedir de beber na beira da estrada para que eu não dirige bêbado, está presumindo que eu sou um imbecil que vou sair atropelando gente depois de tomar uns chopps. Esse tipo de restrição nivela as pessoas por baixo, ao presumir que todas são criminosas em potencial. É como a mãe que não deixa o menino sair na rua para que não seja atropelado – mesmo quando o menininho tem a idade do H. Milen.

    Se tivesse algo a dizer ao Aécio Neves, diria: “libere a venda de cerveja no Mineirão, porra!”

    N.E.: Pior que proibir cerva foi proibir as bandeiras no estádio. Idéia de PM jagunço.

  • Tem também a incrível história dos caras da Galoucura pendurando uma bandeira gigante homenageando René Barrientos quando …

    (Pra quem não sabe, René Barrientos era o general que governava a Bolívia por ocasião da captura e morte de Che Guevara por aquelas bandas. A Galoucura elegeu Barrientos como ídolo justamente por ele ser o algoz de Che – que por sua vez figura em algumas faixas e bandeiras da torcida do rival Cruzeiro. É, eu sei, uma estupidez, mas a culpa não é minha.)

    … onde eu estava mesmo? Ah, os caras iam botar a bandeira do René Barrientos quando apareceram uns caras da ADEMG e da Polícia Militar para recolhê-la. Perguntaram o porquê e ouviram:

    “Não pode bandeira com propaganda eleitoral!”

    Não bastasse Barrientos ser boliviano, há também o detalhe de ele ter morrido há mais de 30 anos, num acidente de helicóptero.

    N.E.: Newtão, Barrientos, Galo… A Galoucura é um terror.

  • As bandeiras de mastro são muito bonitas vistas de longe, meio irritantes quando estão na sua frente, e extremamente perigosas quando o galo está perdendo…

    N.E.: Sugiro proibir Galo em vez de bandeira.

  • Ô cunversa boa. Currículo enxuto, muita pergunta e resposta na bucha.

  • Pessoa inteligente e ousada
    Je suis dacord avec lui
    Embriaguez total!!! e por que nao??


Deixe uma resposta