Agosto 5, 2008...5:23 pm

A ética do chão

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Não sei em qual cidade vives.

Mas arrisco dizer que ela é como a minha, que se arrasta paraplégica em questões de acessibilidade.

Pois somos todos aleijados quando o assunto é convivência, espaço público, necessidades especiais. 

*

Veja o caso de Rose, com quem me encontrei há algumas semanas.

Pegamos o mesmo ônibus, em direção ao Centro. Ela, cadeirante, conta com a clemência de outros passageiros para subir e descer dos veículos.

À coincidência de descermos juntos, coube a mim ajudá-la. Não sou clemente; apenas fui forçado pelo ethos colaborativo que, às vezes, nos salva de um barbarismo total. Sou grato a essa ética: não fosse ela, já teria sido esmagado por manadas de machos furibundos.

Mas Rose aproveita e pede uma “carona” morro acima. Acho uma aventura temerária, mas de tédio não poderia mais reclamar.

Poucos metros e já tenho a noção do desastre. Nossas calçadas são hostis, inviáveis para pessoas na condição de Rose.

De modo que atendo sua sugestão, e optamos pelo asfalto, na contra-mão do trânsito, contando com outras clemências que não a minha.

Um asfalto bem menos irregular que as calçadas, a nos dizer que os pneus dos automóveis merecem melhor trato que o passo dos transeuntes.

Menciono as recentes intervenções da Prefeitura para padronizar as calçadas. “É, eles ficam fazendo essas gracinhas”, resume Rose com ceticismo de especialista. 

Ela detesta pedrinhas portuguesas. “Soltam tudo, vira uma buraqueira”.  

Eu sinto alguma vergonha por Rose. As coisas não precisavam ser assim. Já se gasta tanto cimento, tanta força humana, tanta água potável para lavar o chão… Que diabos custaria um pouco de ética com esse chão?  

O poder público, quando presente, é lerdo. Quando inoperante, é um desastre.

Deixo Rose na banca de revistas.

Nem eu nem ela acreditamos em solidariedade.

Em política, talvez. Ou qualquer outra idéia que nos liberte da vontade alheia.

* * *

Algumas coisas custam mais do que você imagina

…E a MTV pegou a melhor música do último disco do Radiohead e fez um belo clipe.

* * *

Da série:
E-mails antigos me dizem mais que a leitura dos jornais

[ 1 ]

Para: Nossa amiga
Enviado em: 19 de novembro de 2005, às 3h40 da manhã
Assunto: Foi vc quem começou.

 

Acabei de deixar um scrap atrevido.

Resolvi inaugurar seu gmail e abandonar o antigo.

Estou atrás de um motivo pro e-mail, além daquele. Sei que g-mail cabe muito, então vou gastar bit.

Percepções mais imediatas:

1) seus amigos françófilos vão vir no Natal. Saem de um quebra-quebra e caem noutro (Galoucura em fúria). Pedi roupas, mas tão amarrano. Falam que não tenho cabide. Estão certos.

2) Toda mulher quer casar. Inclusive aquelas. Aliás, principalmente aquelas.

3) [ censurado ]

4) O sonho de todo ser humano é dar o dia inteiro, mas isso seria a ruína do (seu) capitalismo.

5) [ censurado ]

6) fui na Obra dia desses. (…) As música eram sambas. Classes médias adoram música de preto (desde que os preto fiquem lá fora vigiano carro). 

7) Outra coisa que classes médias estão adorando é funk carioca. (…). Ontem, um vizinho branco tascou Tati Quebra-barraco na oreia da comunidade até as 2. Acho que ele tá tentando provar alguma coisa.

8. Tirando eu, que sou evoluído, as pessoas que vc respeita têm honra e convicção. Ou seja, você vai se decepcionar com todas elas. Quando isso acontecer, me procure. Para fundar minha seita, preciso de pelo menos um discípulo.

9) Vou passar o Natal e os reveillon no meio-fio. Só tenho a ganhar.

10) 90% dos trabalhadores têm o mesmo emprego: bucha de canhão.

11) O mais legal dos blogs é vc ver uns medalhões da mídia atropelando português, inglês e francês, porque blog não tem revisão. Meia-conclusão: blog faz medalhão virar bucha de canhão. Hi hi hi (mania disso).

12) meu salário fugiu mas as conta já me acharo.

13) acho que a solução é todo mundo vender Natura. Continua todo mundo fudido, mas pelo menos não fica fedido.

14) Se o bar é bom, o chopp é Brahma. Propaganda enganosa (outra). O certo é, já disse: se o chopp é Brahma, o bar é bom.

15) A sorte das mulheres é serem gostosas.

16) Internet é pra isso: entrei na fase dos pornôs underground do leste europeu. Gosto de testar meus limites (e os dos outros).

17) Toda estética é sub-produto da inexperiência. Desenvolva.

18. Sonhei que uma mulher trabalhava nua na redação. Ninguém olhava pra ela, mas todo mundo via quando eu estava olhando. Um psicólogo jungiano, urgente!

19) A crise dos 25 sequestrou um amigo próximo. O cara vai ser largado na beira de uma estrada deserta daqui a uns dois anos. Ou então ser achado num barracão escuro, 10 quilos mais magro.

20) Agora só existem dois filmes: os que vejo socialmente e os que vejo escondido. Bergman, clássicos Disney e “documentários” eu tenho que ver escondido.

21) eu tento morrer sem amigo, mas não consigo.

Love yu,

 

[ 2 ]

Para: o Senhor F
Enviado em:  1º de dezembro de 2005, por volta do meio-dia
Assunto: Re: viagem à francesa

fuck the pain away

a ética protestante X o espírito do capitalismo

direita é quem é liberal na economia e conservador nos costumes

nós é o contrário!

paiaço quem acusa nós.

mijo em cima do cérebro e taco fogo.

ps: fuck europe. fuck tourism. fuck titles. fuck papers.

vive la picanha et la feijoada. vive sex on the beach. vive le [censurado] de las ragazzas.

 

[ e, por fim, 3 ]

Para: Nossa amiga, ainda
Enviado em: 9 de dezembro de 2005, ao cair da tarde
Assunto:  Re: Fui eu quem começou?

Bom.

Eu só tenho uma dúvida.

Que nome darei a meu livro?

Desejo Dodecaédrico

(porque multifacetado?)

Pedra de Rasgar

(por se tratar de dura, porém esfarelante filosofia?)

ou

Tecnologia contra a Dor

(por ser um poema isso e nada mais?)

Quando decidir, te entrego. O conteúdo está fechado para balanço (ou engavetamento).

Será artesanal, como o outro, porém menos puro, porque informações desnecessárias se acumulam sobre mim, e não tenho defrags, nem scandisks, e o máximo que ainda posso são pequenos boots sobre o colchão de mola.

Há que reverenciar, contudo, meu esforço em continuar fazendo do seu pensamento minha sala de estar (mais detalhes no próprio livro).

É uma pena que esteja triste no feriado, porque a propaganda e a “arte” (maldita igreja pentecostal disfarçada) nos ordena a saltar de pára-quedas e desbravar praias desertas nos feriados, e como isso é inviável, de repente parece ser também inviável ser feliz nos moldes da propaganda e da “arte”.

Você está certa e não sabe.

É a quarta pessoa na minha escala de valores e não sabe. (E às vezes é a segunda ou a décima-segunda e continua não sabendo)

Seria bom se a gente soubesse quando faz sucesso na cabeça de alguém.

Seu junguiano rapou suas economias e você não sabe.

Os amigos françófilos têm desejos dodecaédricos (como eu) e isso explica um dia estarem comigo e nos outros 11, não. Vale também (talvez) para meses e anos.

Abracemo-los. Vai que o dia é nosso e a gente nem sabe.

(…) 

hq m

6 Comentários

  • Solidariedade não existe mesmo. Temos é essa sensação de obrigação ou pena. Mas então a sociedade é uma farsa?

    “21) eu tento morrer sem amigo, mas não consigo.” Você estava tentando morrer ou desfazer das “amizades”?!

    n.e.: …tentando dizer que sou um amigo omisso, mas minhas amizades insistem em ser maiores que essas omissões. E, pelo nosso 500º comentário, vc ganha um vale-surra no jogo de sua preferência.

  • Muuuuuito bom, henrique!!! Ah, sobre o caso da cadeirante, lembrei de um blog que visitei e que se refere ao Poder Público como Foder Público. É bem por aí.
    Abçs,
    Leo

  • O clip rolou sem som, mas eu cliquei nele e abriu a página do iutube com som. Há tanta gente pra xingar na construção desse clip que é melhor nem começar. Mas de raiva deixo a última (pé à direita) chamada da capa ( agosto08 ) de http://www.revistapiaui.com.br

    n.e.: não sacamos a chamada de piauí. E o som você resolve com o botão de volume ali no vídeo.

  • …uma lágrima de emoção acaba de descer pela minha bochecha… :o )

    n.e.: não era bem esse o plano.

  • “Seria bom se a gente soubesse quando faz sucesso na cabeça de alguém.”

    My personal favorite.

    n.e.: isso é novo. :)

  • Qual era o plano?

    n.e.: Resgate sem choro.


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