O plano era simples:
Acordar às 7 para pegar o segundo tempo do futebol feminino.
E depois pegar 2 balaio pérfido para a UFMG, onde David Lynch nos aguardava (nós, os 712).
Uaa/aa/aah!…
Impulsos dissolventes (um termo pretensioso para: preguiça) de repente tornam interessante a transmissão online da bagaça.
De fato: corpo presente para quê?
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10 dias antes:
Na Leitura do BH Shopping, o livro “Em águas profundas” boiando na prateleira. ”Um paliasso usando o nome de David Lynch para vender livro de auto-ajuda. Mas como tem palhasso nesse mundo, he he hee.”
5 dias antes:
Na Sala Humberto Mauro, Coração Selvagem foi o Lynch que menos gostei. Mas desse filme veio sua maior premiação, a Palma de Ouro em 1990. [ Os critérios de premiação no mundo cinematofágico são dez vezes mais complexos e bizarros que qualquer filme de Lynch ]
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Eis um sujeito que me faria acordar cedo para vê-lo em pessoa. ”Com David Lynch, na Pampulha” era o título dessa minha cobertura in loco que obviamente não fiz. Mas o título permanece, por falta d’outro.
E ademais não falhei sozinho nessa manhã.
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A vídeo-transmissão do evento no complexo internético da UFMG capengô previsiva e ridiclamente, mas pelo menos deu-nos áudios.
O pau nas imagens foi pelo excesso de visitas na página da universidade – dirão, se perguntarem.
Umas 12 pessoas ao mesmo tempo — direi, sem me perguntarem (rir, rir, rir).
Eis minha contribuição para o caos.
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“Não tenho diálogo, nem relacionamento com o cinema atual.”
[ Perguntado sobre diretores contemporâneos cujo trabalho acompanha ]
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Para sempre me lembrarei das palavras de um homem sábio. Quando ele me disse:
“Uma multidão se acotovelando por uma gota de saber!”
Era da palestra de José Saramago que ele falava.
Mas a zombaria é digna de qualquer palestra de guru pop. Dessas em que se buscam epifanias e não se consegue mais do que declarações de segunda mão, já publicadas em entrevistas e até releases…
O homem sábio se chamava Monsieur e prefere não ser nominado em blogs ralé. (é sábio, afinal)
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“Não sei.”
[ desmoralizando intrincada pergunta acadêmica sobre as conexões do seu cinema com o surrealismo ]
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Daí que esse papo de Lynch sobre meditação transcendental vem em hora oportuna.
Ainda ontem dei 23 minutos de audiência para um desses sermões da madrugada.
O hábito de zapear é uma merda. O ano tem 365 dias, você tem vários humores, e é claro que numa noite dessas seu grau de tolerância à boçalidade encontra-se em stand by. E aí, te pegam. A noite do créu-credo.
Sem crise. Vamos ouvir o que o coroinha tem a dizer.
Ele falava a uma ”juventude confusa”. Para a qual a ‘vocação’ seria a única escolha, a única que Deus reservou para cada indivíduo.
Simplificação. Eu gosto disso.
Mas, dessa vez, havia gatas na juventude cristã. Com penteados e figurinos eu diria contemporâneos. Não mais as virgens casadoiras de outrora.
Por essas gatas valeria a pena suportar 23 minutos de ladainha conformista.
E até achei razoável o papo do sujeito, sem muito proselitismo, algo culto, algo civilizado, algo sincero.
O cara menciona um evento recente, com 180 mil jovens a teus pés. Acha pouco. Quer 200 mil no próximo. Qual o limite para tanto carisma?
E aí, no final do programa, surge aquele violãozinho, acompanhado de versinhos para lá da fronteira do bizarro e do horror.
A breguice, sempre a breguice. Não podemos tolerar breguice. Preferimos a perdição.
Preferimos a estrada perdida mesmo sem compreendê-la.
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“O filme nunca aparece para mim de uma só vez, ele vem sempre em fragmentos.”
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Sei que Lynch não está a nos propor cultos nem louvores.
Mas se ele o fizesse, eu o seguiria.
Eu aceitaria qualquer crença que não fosse esteticamente baranga ou filosoficamente reducionista.
E David não me parece barango nem vulgar.
Acho que lerei seu livro, em vez de jogar confete sobre ele.
(como fiz erradamente com Saramago)
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“Não.”
[ Em resposta a: "Você poderia explicar a caixinha e a chave azul de Cidade dos Sonhos?" ]
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O que admiramos neste senhor não é sua genialidade – da qual, a bem dizer, mal estamos seguros.
O que admiramos em Lynch é seu respeito pelo mistério.
Seu zelo pela interpretação de cada pessoa que observa seu cinema.
Não é pose, não é afetação. É um “não” necessário…
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“Os EUA não são hoje um país do qual eu goste de fazer parte. Mas pressinto tempos melhores não só para os EUA como para o resto do mundo.”
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Universitários bastardos confundiam microfone com divã.
Democracia, a que nos obrigas!
Mas David é tarimbado: tirou de letra até uma cantada pública de academial no cio.
O teu cabelo não nega, velho safado.
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Na Trip, um perfil/entrevista decente, pelo ex-Nomínimo Ricardo Calil.
Se calhar, leia.
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E, por fim:
…um Pateta lynchiano (não confundir com lynchiano pateta).
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Postscriptum não-lynchiano
O Galo me derruba um tabu de 6 décadas e vocês vêm me falar dessa Olimpiadazinha?
6 Comentários
Agosto 7, 2008 às 4:29 pm
Atoando na morada nova de sampa, cai com aquela revista sirigaita da Folha no sofá.
Lynch tava lá. Entrevista sem graça. O cara definitivamente não quer responder perguntinha de jornalista (nem de estudantezinho da fafich, vê-se pela palestra)
Desses Lynchs saracuteando imprensas e corações pelo Brasil, me surgiu a dúvida: isso só acontece aqui pq a gt não tem referência ou é fenômeno mundial?
n.e.: ou a des-referência é fenômeno mundial?
Agosto 7, 2008 às 6:50 pm
É verdade que não se vê um David Lynch todo dia no campus Pampulha. Mas desde a palestra de Pierre Lévy, em que saímos com conceitos mais descontruídos que prédio de Sérgio Naya, esses agrados a calouros têm-se mostrado úteis para preparar futuros filósofos, sociólogos, psicólogos, comunicólogos e outros logos (já que alunos de Exatas e Biológicas têm o que fazer nas primeiras semanas).
Enfim, HMilen só não entrou em estágio nirvana por que não era Win Wenders. Aí queria ver se seu lado fã, pateta, não iria aflorar!
n.e.: Wim? Prefiro Domingos Oliveira.
Agosto 7, 2008 às 8:54 pm
No último filme do dito cujo saí no meio da sessão. Não estava entendendo.
Agosto 7, 2008 às 10:37 pm
Que David Lynch que nada…
Guarda seu vale-transporte para segunda-feira que vem, dia 11, defesa de tese de nosso professor Delfim. Tome nota:
“IMAGENS DE ARQUIVO, CENAS DESCONHECIDAS: Um estudo sobre bibliotecários, jornalistas, rede de relações e práticas informacionais em arquivos de telejornalismo”
Data: 11 de agosto de 2008, às 14:00 horas
Local: Sala 1000. (Escola de Ciência da Informação)
Até
ps: o menino já está quase andando… (viu Tio Bolinha (ele sabe quem é) vc anda muuuuito sumido).
Agosto 8, 2008 às 5:56 am
eu sou uma visionária, hm.
o que eu te disse sobre o lado de fora?
Agosto 8, 2008 às 10:24 am
“Eu aceitaria qualquer crença que não fosse esteticamente baranga ou filosoficamente reducionista.”
Experimenta então ler Orthodoxy do Chesterton.
n.e.: você leu isso ou tá repassando dica de R. Azevedo?