Agosto 7, 2008...3:26 pm

Com David Lynch, na Pampulha

Ir aos comentários

O plano era simples:

Acordar às 7 para pegar o segundo tempo do futebol feminino.

E depois pegar 2 balaio pérfido para a UFMG, onde David Lynch nos aguardava (nós, os 712).

Uaa/aa/aah!…

Impulsos dissolventes (um termo pretensioso para: preguiça) de repente tornam interessante a transmissão online da bagaça.

De fato: corpo presente para quê?

*

10 dias antes:

Na Leitura do BH Shopping, o livro “Em águas profundas” boiando na prateleira. ”Um paliasso usando o nome de David Lynch para vender livro de auto-ajuda. Mas como tem palhasso nesse mundo, he he hee.”

5 dias antes:

Na Sala Humberto Mauro, Coração Selvagem foi o Lynch que menos gostei. Mas desse filme veio sua maior premiação, a Palma de Ouro em 1990. [ Os critérios de premiação no mundo cinematofágico são dez vezes mais complexos e bizarros que qualquer filme de Lynch ]   

*

Eis um sujeito que me faria acordar cedo para vê-lo em pessoa. ”Com David Lynch, na Pampulha” era o título dessa minha cobertura in loco que obviamente não fiz. Mas o título permanece, por falta d’outro.

E ademais não falhei sozinho nessa manhã. 

*

A vídeo-transmissão do evento no complexo internético da UFMG capengô previsiva e ridiclamente, mas pelo menos deu-nos áudios.

O pau nas imagens foi pelo excesso de visitas na página da universidade – dirão, se perguntarem.

Umas 12 pessoas ao mesmo tempo — direi, sem me perguntarem (rir, rir, rir).

Eis minha contribuição para o caos.

*

“Não tenho diálogo, nem relacionamento com o cinema atual.”

[ Perguntado sobre diretores contemporâneos cujo trabalho acompanha ]

*

Para sempre me lembrarei das palavras de um homem sábio. Quando ele me disse:

“Uma multidão se acotovelando por uma gota de saber!”

Era da palestra de José Saramago que ele falava.

Mas a zombaria é digna de qualquer palestra de guru pop. Dessas em que se buscam epifanias e não se consegue mais do que declarações de segunda mão, já publicadas em entrevistas e até releases… 

O homem sábio se chamava Monsieur e prefere não ser nominado em blogs ralé. (é sábio, afinal)

“Não sei.”

[ desmoralizando intrincada pergunta acadêmica sobre as conexões do seu cinema com o surrealismo ]

*

Daí que esse papo de Lynch sobre meditação transcendental vem em hora oportuna.

Ainda ontem dei 23 minutos de audiência para um desses sermões da madrugada.

O hábito de zapear é uma merda. O ano tem 365 dias, você tem vários humores, e é claro que numa noite dessas seu grau de tolerância à boçalidade encontra-se em stand by. E aí, te pegam. A noite do créu-credo.

Sem crise. Vamos ouvir o que o coroinha tem a dizer.

Ele falava a uma ”juventude confusa”. Para a qual a ‘vocação’ seria a única escolha, a única que Deus reservou para cada indivíduo.

Simplificação. Eu gosto disso.

Mas, dessa vez, havia gatas na juventude cristã. Com penteados e figurinos eu diria contemporâneos. Não mais as virgens casadoiras de outrora.

Por essas gatas valeria a pena suportar 23 minutos de ladainha conformista.

E até achei razoável o papo do sujeito, sem muito proselitismo, algo culto, algo civilizado, algo sincero.

O cara menciona um evento recente, com 180 mil jovens a teus pés. Acha pouco. Quer 200 mil no próximo. Qual o limite para tanto carisma? 

E aí, no final do programa, surge aquele violãozinho, acompanhado de versinhos para lá da fronteira do bizarro e do horror.

A breguice, sempre a breguice. Não podemos tolerar breguice. Preferimos a perdição.

Preferimos a estrada perdida mesmo sem compreendê-la.

*

“O filme nunca aparece para mim de uma só vez, ele vem sempre em fragmentos.”

*

Sei que Lynch não está a nos propor cultos nem louvores.

Mas se ele o fizesse, eu o seguiria.

Eu aceitaria qualquer crença que não fosse esteticamente baranga ou filosoficamente reducionista.

E David não me parece barango nem vulgar.

Acho que lerei seu livro, em vez de jogar confete sobre ele.

(como fiz erradamente com Saramago)

*

“Não.”

[ Em resposta a: "Você poderia explicar a caixinha e a chave azul de Cidade dos Sonhos?" ]

*

O que admiramos neste senhor não é sua genialidade – da qual, a bem dizer, mal estamos seguros.

O que admiramos em Lynch é seu respeito pelo mistério.

Seu zelo pela interpretação de cada pessoa que observa seu cinema.

Não é pose, não é afetação. É um “não” necessário…

“Os EUA não são hoje um país do qual eu goste de fazer parte. Mas pressinto tempos melhores não só para os EUA como para o resto do mundo.”

*

Universitários bastardos confundiam microfone com divã.

Democracia, a que nos obrigas!

Mas David é tarimbado: tirou de letra até uma cantada pública de academial no cio.

O teu cabelo não nega, velho safado.

*

Na Trip, um perfil/entrevista decente, pelo ex-Nomínimo Ricardo Calil.

Se calhar, leia.

*

E, por fim:

…um Pateta lynchiano (não confundir com lynchiano pateta).

* * *

Postscriptum não-lynchiano

O Galo me derruba um tabu de 6 décadas e vocês vêm me falar dessa Olimpiadazinha?

6 Comentários

  • Atoando na morada nova de sampa, cai com aquela revista sirigaita da Folha no sofá.

    Lynch tava lá. Entrevista sem graça. O cara definitivamente não quer responder perguntinha de jornalista (nem de estudantezinho da fafich, vê-se pela palestra)

    Desses Lynchs saracuteando imprensas e corações pelo Brasil, me surgiu a dúvida: isso só acontece aqui pq a gt não tem referência ou é fenômeno mundial?

    n.e.: ou a des-referência é fenômeno mundial?

  • É verdade que não se vê um David Lynch todo dia no campus Pampulha. Mas desde a palestra de Pierre Lévy, em que saímos com conceitos mais descontruídos que prédio de Sérgio Naya, esses agrados a calouros têm-se mostrado úteis para preparar futuros filósofos, sociólogos, psicólogos, comunicólogos e outros logos (já que alunos de Exatas e Biológicas têm o que fazer nas primeiras semanas).

    Enfim, HMilen só não entrou em estágio nirvana por que não era Win Wenders. Aí queria ver se seu lado fã, pateta, não iria aflorar! :D

    n.e.: Wim? Prefiro Domingos Oliveira.

  • No último filme do dito cujo saí no meio da sessão. Não estava entendendo.

  • Que David Lynch que nada…
    Guarda seu vale-transporte para segunda-feira que vem, dia 11, defesa de tese de nosso professor Delfim. Tome nota:

    “IMAGENS DE ARQUIVO, CENAS DESCONHECIDAS: Um estudo sobre bibliotecários, jornalistas, rede de relações e práticas informacionais em arquivos de telejornalismo”

    Data: 11 de agosto de 2008, às 14:00 horas
    Local: Sala 1000. (Escola de Ciência da Informação)

    Até

    ps: o menino já está quase andando… (viu Tio Bolinha (ele sabe quem é) vc anda muuuuito sumido).

  • eu sou uma visionária, hm.

    o que eu te disse sobre o lado de fora?

  • “Eu aceitaria qualquer crença que não fosse esteticamente baranga ou filosoficamente reducionista.”
    Experimenta então ler Orthodoxy do Chesterton.

    n.e.: você leu isso ou tá repassando dica de R. Azevedo?


Deixe um comentário