
En passant: Echo & the Bunnymen também se tornou um problema
1) Era 1988
A primeira Olimpíada que acompanhei com algum interesse foi a de Seul, na Coréia.
Quando tive ciência do talento brasileiro para tomar surras em Olimpíadas.
Dilatações anais generalizadas, provenientes de nabas européias, americanas, asiáticas…
Uma humilhação.
E um choque, porque eu acreditava que todo aquele auê com os atletas brasileiros, a ventilação de um certo ”Brasil-potência esportiva”, tinha lá algum fundamento.
Blablablás políticos e midiáticos. Ali, antes e depois.
“Nosso esporte é torcer pelo Brasil”.
* * *
2) Ouro de cu é rola
Tô curtindo mesmo é o critério do quadro de medalhas do NYT. Eles deram um jeito dos EUA ficarem em primeiro e a China em segundo (por enquanto, tá dando certo…).
O Brasil também se deu bem na parada: saiu de 31º para 13º (quase no almejado G-12 de Nuzman, uiuiui).
* * *
3) É 2008 (excertos crônicos)
Sábado, na Folha: “Você vai assistir à Olimpíada de Pequim?”
Rubem Alves diz que não:
“(…) Observe os corpos das nadadoras. São máquinas especializadas numa só função, treinadas por anos para derrotar a água.(…) A água, sua inimiga, resiste. Ganha a atleta que ficar menos tempo dentro da água. O prazer da nadadora não está na água; está no cronômetro. (…). A competição, representada no seu ponto máximo pelas Olimpíadas, é o oposto do brinquedo. O brinquedo é uma atividade feliz. Por sua vontade, o corpo não competiria. Ele brincaria. O corpo não gosta de competições e Olimpíadas porque elas existem sobre o estresse. E o estresse faz sofrer. Os atletas sofrem. Basta observar a máscara de dor nos seus rostos”. (“Não vou ver as competições…”)
Moacyr Scliar diz que sim:
“(…) Para milhares de jovens, inclusive e principalmente no Brasil, o esporte, e sobretudo o esporte olímpico, é o caminho da auto-afirmação, da restauração da dignidade pessoal. E o instrumento para isso é aquilo que o ser humano possui de mais autêntico: o próprio corpo. (…) Quando o peito do corredor rompe a fita na chegada da prova, não se trata apenas de uma vitória mensurável em minutos e segundos. Trata-se de libertação. É o momento em que a pessoa se liberta da carga pesada representada por um passado de pobreza, de privações, de humilhação.Vocês dirão que o esporte não corrige as distorções, não redistribui a renda. Mas corrige distorções emocionais e sociais, representadas pelo preconceito; e redistribui auto-estima. É pouco? Talvez seja, mas é um primeiro passo”. (“A olimpíada é a vida – melhorada”)
No mesmo dia, José Geraldo Couto citou Drummond e Mário de Andrade para ponderar sobre esse negoço de torcer pelo Brasil:
“NENHUM BRASIL existe. E acaso existirão os brasileiros?” O verso que encerra o poema “Hino Nacional”, de Carlos Drummond de Andrade, sempre me volta à memória em ocasiões como esta, de “exaltação da nacionalidade”. (…) A provocação de Drummond soa cada vez mais atual. O que é uma nacionalidade num mundo cada vez mais globalizado, no qual o poder do dinheiro desconhece fronteiras, línguas, culturas? O que vale mais: o distintivo de um país ou o logotipo de um grande patrocinador? Já faz tempo que a seleção brasileira de futebol, por exemplo, não é mais vista como o ápice onde almejam chegar os atletas, mas como mera vitrine para valorizar seu passe no exterior. Não é mais fim, é meio.
(…) O que é a “pátria”, afinal? (…) Eu disse uma vez que a minha pátria é o futebol, mas isso é uma simplificação brutal. É, sim, o futebol, mas um certo futebol, aquele que eu cresci vendo e tentando praticar. É também uma música, um humor, um sotaque. Alguns aromas e sabores. Uma afetividade. “A verdadeira pátria é a infância”, disse Baudelaire. É o lugar -real ou imaginário- em que nos sentimos em casa.
Por isso, por mais que admire os feitos de atletas como Rodrigo Pessoa, os irmãos Grael e Robert Scheidt, não consigo vibrar com eles, porque a equitação e o iatismo não fazem parte da “minha pátria”.
Não é porque eles ostentam o verde e o amarelo em algum lugar da indumentária que vou me sentir mais próximo deles, assim como não sinto afeto (positivo ou negativo) pelos mauricinhos brasileiros da F-1.
E já que abri esta coluna com Drummond, encerro com versos de outro Andrade, o Mário, que expressam o que não fui capaz de dizer: “Brasil amado não porque seja a minha pátria,/ pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der…/ Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,/ o gosto dos meus descansos,/ o balanço das minhas cantigas amores e danças./ Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,/ porque é o meu sentimento pachorrento,/ porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir”. (“Acaso de migrações”)
César Benjamin, no mesmo sábado e na mesma Folha, quase me convence que sábado é mesmo o dia das grandes reflexões:
“É impressionante o lixo ideológico que a imprensa tem produzido ao cobrir a Olimpíada. Em geral, os repórteres buscam sempre os ângulos mais negativos, mesmo à custa de adentrar o ridículo. Vi coisas incríveis.
O locutor ressalta o caráter repressivo do regime chinês, enquanto as imagens mostram, como prova disso, um grupo de guardas de trânsito e câmeras de televisão que monitoram avenidas. O locutor fala do controle do Partido Comunista sobre as pessoas, enquanto na tela aparecem torcedores que preparam uma coreografia. Manifestações com menos de cinco indivíduos são tratadas como acontecimentos épicos. Se houver um pouco maiores, é a prova de que o povo está contra o governo. Se não houver, é a prova de que a repressão é terrível.
Ideologias não se subordinam a fatos. Elas criam fatos e se realimentam de suas criações. Formam sistemas fechados. Por isso, a China não tem saída: aconteça o que acontecer, faça o que fizer, é culpada. Se fizer o bem, é por dissimulação. Ela é má.
Atletas americanos desembarcaram em Pequim usando máscaras contra a poluição, mas tiveram azar.
Nesse dia, excepcionalmente, o ar na capital chinesa estava mais limpo que o de Nova York, de onde haviam partido. Apoiamos essas grosserias como se fossem gestos nobres.
George W. Bush, que praticamente não havia saído do Texas até se tornar presidente dos Estados Unidos, acredita que os chineses só não praticam maciçamente o cristianismo porque o governo deles não deixa. Ignora uma civilização que tem 7.000 anos de história. Ela construiu uma sofisticada visão do homem, do mundo e do cosmo, nem melhor nem pior do que a nossa, mas diferente, e sem a qual a existência humana seria muito mais pobre.
Repórteres monotemáticos escrevem todos os dias sobre falta de liberdade de expressão, carregando nas tintas, para cumprir a pauta que receberam dos chefes. Se não a cumprirem, serão demitidos. Defendem, pois, uma liberdade que eles mesmos não têm. “Os chineses estão perplexos com tantas manifestações contra o seu regime em todo o mundo”, escreveu um deles, sem se importar com o fato de que em nenhum lugar tem havido nenhuma manifestação relevante”. (…) (“Tomara que seja linda”)
No domingo, Juca Kfouri avisa que tá saindo de férias, não sem antes mandar o seguinte recado olímpico:
“(…) Não aceito ver essa cartolagem imunda da família olímpica no papel de fiscal dos hábitos da juventude e, ainda por cima, expondo jovens à execração pública, como acabam de fazer com um jogador do handebol brasileiro. (…) Aliás, quanto mais medalhas o Brasil ganhar, mais ficará demonstrado o desvio de sua não-política esportiva, porque privilegia o alto rendimento em vez da inclusão social ou a saúde pública por meio da prática de esportes. (“Os Jogos da hipocrisia”)
*
Quanto à predominância folhal desses excertos, foi coincidência. Compro O Globo, JB e O Tempo com a mesma frequência. Mas a Folha demonstra um apreço pelo design gráfico e pelo debate isento (duas de minhas paixões) que a concorrência tem certa dificuldade de empreender.
* * *
4) Era 1996
Nerds belorizontinos, sob o comando de Ronaldo Gazel, saíram do quarto e produziram um programa de TV ducaralho. Que, óbvio, nenhuma emissora cagã local se dispôs a veicular.
Porque todas elas são muito sérias, e tal.
(D. Florêncio deve ter algo a dizer sobre isso, hihihi)
*
Bom, taí o spam/release que o Gazel me mandou esta manhã:
GIGABOOM, que fala sobre videogames, RPG e umas loucuras toscas, foi
digitalizado. E o mais incrível, perdeu pouquíssima qualidade de vídeo
e áudio, considerando-se todo esse tempo.
Parte 2 – http://www.youtube.com/watch?v=Rmp_dbrzvlU
Parte 3 – http://www.youtube.com/watch?v=SNzhUFPaYbg
que apostou na idéia, apesar da anarquia proposta pela trupe que
apresenta o programa (que vocês conhecerão no vídeo). E agradou
bastante aos padres. Trivia: depois do programa pronto, o padre que
mandava geral no SSV disse que tinha homem demais! Sugeriu colocar uma
mulher. Dito e feito, inserimos uma mulher no meio da história.
dois vídeos de 14 minutos cada, contendo as duas partes do
programa-piloto. É tosco? É. Mas pensem, isso é 1996! Detalhe: editado
em videomachine, Windows 3.1.
foi responsabilidade do meu tio, João Gazel (cabeludo que aparece no
final do vídeo), de quem eu era sócio na extinta agência Equipe de
Criação.
surpreendentes! Mas ninguém teve coragem de exibir. Vou ver se posto
todas as curiosidades sobre esse projeto no meu blog, daí eu mando um
link.
Alguns destaques:
- Israel, Arnon, Marco Aurélio e Lupércio dando um show de atuação
- Marco Aurélio, Israel e Lupércio narrando os jogos sem roteiro, toscamente
- Spoilers: final do Resident Evil
- Previews: Tekken2, Sega Rally, Panzer Dragoon 2 e um futebol do Saturno.
- Marco Aurélio e Israel vestidos de mulher (HOT!!!)
- Arnon ensinando a acessar a Seven BBS via TELIX
- Israel detonando no kung fu e me transformando em salame (Comando Ninja)
- Eu, 40 quilos mais magro e de costeletas gigantes
- Muitas tosqueiras podres
- Clip megaprodução (haha!) no final, com grua e tudo o mais.
Direção: Rômulo Breda (Rominho)
Trilha sonora: Ruben Di Souza
Espero que gostem!
Abraço
9 Comentários
Agosto 12, 2008 às 2:49 pm
Conhece o Gazel? Trabalhei com ele muito tempo, figuraça.
n.e.: não muda de assunto não, que eu sei que é seu niver, rapá.
Agosto 12, 2008 às 5:26 pm
A pior coisa nessa olimpíada é ver os repórteres, apresentadores, comentaristas, valorizando décimos, vigésimos, últimos lugares como se fossem conquistas… Como diria HMilen: “Pelamordedeus!”
Desde quando bronze é orgulho? Cadê a natação? Só devemos garantir ouro em vôlei e talvez futebol… A que ponto chegamos… Não temos eficiência em esportes individuais. Falta patrocínio e dedicação nos treinos. Falta incentivo e garra.
n.e.: JP caiu no conto da natação e fez glub-glub.
Agosto 12, 2008 às 11:35 pm
linkinho escondido do NYT
http://www.nytimes.com/interactive/2008/08/04/sports/olympics/20080804_MEDALCOUNT_MAP.html
Mélin que é especialista das visualidades, perdeu o comentário.
Agosto 13, 2008 às 12:27 pm
Fiquei muito feliz com esse post, você nem imagina!
Resgatar esse material de uma fita que ficava de mão-em-mão, colocando em risco o conteúdo do Giga, era algo que há tempos queria fazer. Somente sábado consegui a fita, na casa do Israel (o “Brêafs”).
A maioria desse pessoal, hoje, tem filhos que já jogam videogames; alguns ficaram carecas, gordos, enfim – mudamos muito! – Mas não mudou o amor pelos videogames e pelas interfaces digitais: quase todo o cast do Gigaboom envelheceu e ficou mais fanático ainda!
Abraço e obrigado pelo post.
n.e.: então admita, meu caro, que o NES de 8 bits foi o melhor sistema que já existiu.
Agosto 13, 2008 às 1:32 pm
Bronzes deveriam ser valorizados, assim como qualquer conquista olímpica. É motivo de orgulho saber que o Brasil vem melhorando, gradualmente, os seus resultados em esportes que não o futebol (que, aliás, “melhor do mundo”, nunca foi ouro).
Quem diria, no 88 do HM, que o Brasil chegaria a 5 finais na ginástica artística e teria favoritos a medalhas em esportes como o salto em distância e salto com vara???
É por esse sentimento brasileiro de que só o ouro vale, de que só o primeiro lugar é importante, que não somos potência olímpica. Se nossos atletas não forem a olimpíadas ou mundiais e ficarem em oitavos, décimos-primeiros, centésimo-quintos, e se não houver intercâmbio, experiência internacional, não haverá crescimento.
Ninguém chega ao primeiro lugar sem passar pelas outras posições.
O insuportável da imprensa é alimentar falsas esperanças: só porque o Thiago Pereira ganhou oito ouros no Pan do Rio, competição que não deve estar nem entre as 20 mais importantes do mundo da natação, não quer dizer que tenha chances de medalha. Quem acompanha esporte sabia disso desde o começo, mas a imprensa insiste em colocar esperanças em torcedores incautos como JP.
n.e.: enfim, um HM (Hernani Miranda) que impõe respeito.
Agosto 15, 2008 às 9:26 pm
Thiago Vergonha Pereira afundou…
Basquete feminino encestado…
Handebol goleado…
Ginástica feminina sedentária…
Uma vergonha esse negócio de enviar turistas para gastar dinheiro público em Beijing!
n.e.: Que falta de esportiva, JP.
Agosto 18, 2008 às 6:38 am
NYT tá coberto de razão. Inclusive acho que cada país deveria contar seus contos de ouro às suas maneiras.
Por exemplo pro Brasil subir alguns degraus na classificação geral, poderíamos contar o número de medalhas recebida por esportista… e não por esporte.
Isso faria 11 medalhas pro futebol, 6 pra vôlei, 2 pra vôlei de praia, etc.
Ou então, fazer o contrário: contar apenas 1 medalha por cada segmento de esporte. Umazinha pra melhor delegação de ginástica, e outrazinha pra equipe natação que ganhasse mais provas. Sem essa de deu um pulinho ali, quicou aqui e ganhou-se um ouro là e um bronze aqui. Acabar com essa distribuição de renda dourada tãn injusta entre os esportes.
Seria tão justo contar assim, quanto a contagem inovadora do NYT.
Ou então medalha por tempo dedicado ao ouro. Afinal não é justo que uma medalha de 20 segundos felphianos no bem-bão de uma piscina fresquinha se equiparem a uma medalha de 90 min (+ 30 de prorrô, se houver) de calamitoso suor do futebol.
Matemáticos poderiam ponderar todos estes fatores numa bela equação para chegar a um valor que representasse melhor o esforço de cada equipe olímpica. E que, inclusive, fosse incluído aí outros fatores bem mais pertinentes aos jogos da era (pos-)muderna… como por exemplo a mais valia de um bom patrocínio agregado: afinal o que vale uma medalha de ouro sem o apoio de alguns milhões de dinheiros em publicidade?
n.e.: 22 medalhas pro futebol, contando c’os reservas.
Agosto 18, 2008 às 12:21 pm
A Inglaterra ta me fazendo virar um cinico. Sorte a minha (nossa) que nao gastamos tutano, e principalmente dinheiro produzindo aqueles programas.
Assim como o Gigaboom, iria parar na mesa de alguem em algum canal de TV que ia provavelmente pensar que era “meio demais” pra audiencia deles.
E realmente seria.
Gazel, Minas eh a terra que nutre talentos pra eles ganharem dimensao fora… Veja o exemplo do governador. Ele eh eleito ai, mas aparece na coluna social eh do Rio de Janeiro.
Se pelo menos houvesse um pouquinho mais de dinheiro ai, as vezes a coisa fosse diferente. Mas a nossa pena, eh que Minas nao tem mar e nao vai levar nem unzinho do dinheiro do Pre-Sal. A economia/cultura de Minas vai continuar sendo ditada pelos cafeicultores/pecuaristas/mineradores…
Agosto 19, 2008 às 12:49 am
“n.e.: 22 medalhas pro futebol, contando c’os reservas.”
Na verdade são 18. O COI é mais “econômico” que a FIFA, e não quer ficar desperdiçando espaço de alojamento olímpico com terceiros-goleiros e mais os pernas-de-pau que os Dungas da vida iam levar pro banco (se os titulares são quem são, imaginem os reservas…).