Lembrete cívico a um jóvem repórter satisfeito com o salário mas desgostoso com a situação geral:
“Os jornalistas poderão se recusar a produzir matérias ou a realizar tarefas que venham a infringir as normas do Código de Ética Profissional da Categoria e da Lei de Imprensa.
Parágrafo único: Quando da realização/produção/redação da matéria jornalística, se houver modificação do texto produzido pelo empregado por parte de seu superior hierárquico, faculta-se ao empregado a não assinatura da matéria”.
(retirado Do Código de Ética dos jornalistas do Brasil)
Se rogar ao código-mor de sua profissão lhe parecer tão inútil quanto perigoso, não perca mais tempo. Peça asilo político numa democracia sólida e efetiva.
Aproveite enquanto ainda existem duas.
* * *
Diálogo inútil (*) do abismo-mole com o duro-na-queda:
“Rolou um barraco, a irmã do governador picou a mula e tá morano em Londres por tempo indeterminado. Cuidado pra não trombar com ela aí na Central Line.”
“E por que ela veio pra cá? Brigou com o irmão? Deu chilique? Ou veio aprender o que que é jornalismo?”
(*) ficção livremente adaptada de nossa realidade imediata. Ou adaptada de modo a evitar advogados.
* * *
Já me arrependi
de publicar
isso aqui.
* * *

1. Desvelo
Na jaula aberta de um viajante li, riscado na parede, o seguinte pensamento:
“Eu viajo para sentir saudade.”
Decidi imitiar o viajante para, como ele, poder sentir saudade também.
Poder lembrar o que passou e sentir um gosto diferente.
Perceber melhor o que é raro e o que é vulgar.
O que é de nosso alcance e o que não é.
Pois toda passagem é para longe.
E a única viagem é desvelar.
* * *

2. Fé
Onde quer que eu esteja, banca de revista tem prioridade. Banca de revista é minha capela, minha mesquita, pois toda minha teogamia se baseia em informação fútil, filtrada e pasteurizada.
Mas nas bancas das velhas metrópoles nada vejo de estimulante e empolgante, minimamente digno de gritos e louvores periféricos meus. Vejo um mundo de velharias maquiadas, sobrevivendo às custas do star-system, do futebol, do fetiche intelectual, do multi-terror.
Sinto que esse tal mercado editorial, engessado de mil maneiras (ideológicas, econômicas, estéticas, corporativas, políticas, intelectuais, etc etc), não produz mais nada de urgente (no sentido poético e filosófico) ou realmente interessante (no sentido filosófico e poético).
Zanzar em bancas, livrarias ou megastores é pôr em evidência a desimportância do que vendem. Jornais, revistas, livros, CDs, DVDs são objetos cada dia mais ultrapassados, ectoplasmas pesados e coloridos daquele antigo século XX, quando ainda fazia sentido amontoar toda essa tralha em casa. Assim nos disse um druída, e suas palavras eu não consigo esquecer.
*
Mas mesmo depois de caminhar entre impressos moribundos-que-não-morrem-tanto-assim, eu volto com a mala cheia de papéis. Um) porque sou dado a necrofilias e dois) porque deve ser verdade que se algo morre, nasce algo noutro lugar e ao mesmo instante.
*
Ontem li num ônibus azul uma comparação entre os impressos atuais e as ferrovias no início do século passado. Os então donos de ferrovias achavam que seu negócio era ferrovia, e não transporte.
Os que crêem hoje em impressos seremos atropelados pelo tempo e cobertos pela mata, como as velhas ferrovias?
*
Como todo adolescido, eu acredito em destruição.
*
Na volta à paróquia, entro em minha capelinha habitual e de lá saio com:
- Caros Amigos, com algo sobre China e América Latina
- Trip, com o de sempre e uma capa agradável ao tato e ao olhar
- Le Monde Diplomatique, atendendo a pruridos inteléticos passageiros
São as três únicas coisas que não me parecem 100% caipiras e/ou intencionalmente cretinas.
Com Piauí e CartaCapital não me preocupo, já me chegam em casa.
Aliás tô concorrendo no concurso da bandeira da Piauí. Aviso se ganhar.
*
Resolução para 2009: evitar TV aberta, Editora Abril e Diários Associados depois de refeições pesadas.
Aliás, evitar refeições pesadas.
*
Proponho análise apressada, tendenciosa e vagabunda das semanalhas de 14 de dezembro:

CartaCapital pauta-se por direitos humanos e traz um dado novo. Deve ter vendido mais que dicionário português-finlandês. Avante!
IstoÉ resolve não dar capa para doenças e dietas, o que é chocante.
Época chuta o balde e investe tudo nas comadres entediadas dos clubes nublados. O que a pobre não sabia é que a gigante Veja também tá na briga pelos leitores da Tititi e da Conta Mais. Época apostou e perdeu. ”A banca fica com tudo”, hihihi. E daqui de fora observamos algo incrédulos o espaço dado a ex-pinto de diva sexagenária e decadente.
Outro dia falaram do nariz do galã aspirador e sobre o que todos tinham a ver com isso. Mas pelo jeito o nariz do galã vendeu paca, e temos então um novo filão doiro.
E a vida das celebridades é sempre um assunto tão interessante para quem não tem assunto algum!
* * *
De longe espreitei a contagem de mortos em Santa Catarina.
De perto observei a indignação com as doações saqueadas.
Foi quando um diabo me disse: os primeiros a saquear o Estado foram seus governadores e respectivos secretários de obras, que com gordos salários e orçamentos esperaram a chuva chegar. E agora devem estar com suas madamas na Europa, contemplando monumentais pontes inglesas, talvez.
Enquanto gente que se diz séria faz campanha na TV para arrecadar esmola e roupa velha com cecê.
Assim ele me disse.
* * *

3. Cálculo
Ainda pequeno aprendi a fazer um cálculo [esse trecho é longo, mas conheço atalhos; dê-me não mais que 40 segundos].
Crescendo só fiz aprimorá-lo, e hoje esse cálculo é um sistema de variáveis complexas. Um peso mental que arrasto inconsciente.
*
Daí que sumi uns dias para, entr’outras missões, reimaginar uma existência em que tal cálculo não fosse exigência constante e permanente.
Deu certo. Esqueci desse velho cálculo. Ocupei-me então doutras matemáticas e quimeras.
Meti-me com outros papéis, lógicas e semânticas. Encontrei no frio um inimigo favorito, certo de que ele no fundo não me queria mal algum. Como todo bom inimigo, afeiçoei-me.
E como previsto, um dia eu voltei.
*
Meu chão quentinho me recebeu com as pequenas delícias de sempre. E por cinco dias dormi em paz.
(…)
Agora eu me vejo aqui com oito sujeitos, um bando de roedores humanos que circulam pelos meandros secos da cidade, e que por acaso vi saindo debaixo de um viaduto feio e dentuço como eles. Os ratões me fazem calcular. Todos eles me olham e eu sei porquê. Eles estão calculando também.
Eles — todos — estão avaliando os prós e os contras de atravessar a rua, me cercar e levar de mim o que quer que eu tenha. Se a ocasião lhes for favorável, eles virão. Se não, não.
Não são miseráveis. Nem vítimas, nem talvez marginais. São apenas um bando e isso basta. Toda selva tem seus bandos e aos bandos cabe bandear.
*
O supermercado com sistema de vigilância está aberto e está a dez metros de mim. O bando está a vinte metros. Caso a selva avance (o que seria bastante natural), a civilização me resguardará. Porque ela está mais perto. E só. Este é o cálculo, pois.
(…)
Desde sempre eu tento estar perto da civilização. Corro para perto de um porto ilusoriamente seguro — ao mesmo tempo que fujo de um predador real ou imaginário. É um cálculo permanente — e pior, de questionável utilidade.
Pois minha civilização é fugidia. Ela é cara, ela é rara, ela é frágil.
Minha selva quentinha, por sua vez, eu a vejo em toda parte.
Eu devia ser o macho que impõe a civilização à selva, eu sei.
Porém, macho, não macheei. Não honrei Jesus, Mohandas e Eliot, machos que se impuseram ao bando e o fizeram miar.
Esse bando, que bandeia e bandeará até o fim das eras, se deu bem ao me ter como oponente.
* * *
Portal internético propõe:
“Retrospectiva. Morte de Isabella ou Sequestro de Eloá. Vote no crime do ano.”
Não aprendemos nada.
* * *

4. Diabo
/Sem_comanda combinara com P_K de encontrarem-se à porta do museu, mas estava como sempre em desacordo com o relógio alheio.
Disse a C:// o que lera há muito tempo numa crônica de Rubem Braga: não se deve deixar uma muié esperando, porque a muié que espera conversa com o diabo.
“Tudo bem, algumas mulheres precisam mesmo conversar com o diabo”, lhe respondeu C://, algo especialista.
“Com o diabo certo, sim. Mas não com o diabo errado”, relativizou /Sem_comanda, blefando como sempre.
“O diabo errado nunca vai aparecer no Museu d’Orsay”, fechou C:// em grande tarde.
* * *
“Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”.
O Livro dos Itinerários
(epígrafe afanada de livro-da-moda-candidato-à-eternidade)
* * *
“All families have bad memories.”
Michael Corleone
* * *
4 Comentários
Dezembro 21, 2008 às 11:32 pm
pô, h, meu laptop tá com problema na tela ou tem bolinhas baranguíssimas freqüentando teu blog? diz que é neve em londres, e não enfeite natalino, tá?
[sobre saudades: é isso que o mundo te dá qd vc o desafia]
n.e.: bolinhas têm data para ir embora; baranguice, não.
Dezembro 21, 2008 às 11:41 pm
Que post minimalista…
1º Código de Ética do Jornalismo é a melhor coletânea de piadas que existe
2º Aquela foto em que aparece o capacete de um escafandro parece a loja em que Bob Esponja e Patrick estavam após serem capturados
3º HMilen é puxa saco convicto de Carta Capital. Carta Capital é puxa saco convicta de Lula. Portanto, HMilen é puxa saco convicto de Lula
“Hoje, o tirano governa não pelo cacetete e pelo punho; mas, disfarçado como pesquisador de mercado, ele conduz seu rebanho pelos caminhos da utilidade e do conforto.” Marshall McLuhan
n.e.: …pensando se vale a pena tentar entender o 2º item.
Dezembro 26, 2008 às 5:01 pm
A melancolia natalina impregnou teu retorno, rapá?
n.e.: não culpemos o Natal, e sim os duendes.
Dezembro 28, 2008 às 8:53 pm
De que adiantam biombos profissionais se o que conta mesmo é a postura quanto aos costumes (ou síndromes)? Que talvez só deveriam sustentar duas leis: não matar senão para comer; e não tirar de quem tem menos; sendo que terceiras são somente semente de cipoal. E se não temos por tarefas principalis fazer a servidão dar lugar à solidariedade e superar o costume romano do trabalho pelo dinheiro, então não sei pra que serve civilização. De mim os Marinho e os Civita não levam um centavo há anos, a não ser o meu imposto que os governos lhes tem dado. Já o condomínio dos Teixeira, que também vive dos impostos, acaba de me levar 5,90 pela revista Sabores. Por ela valeu.
n.e.: livro de receitas e jornalismo atual. Tudo a ver.