Pela tarde passo um pente-grosso em Lojas Americanas. Saio de lá com um DVD de Cassino e outro de Boa Noite e Boa Sorte. Tem coisa boa na montanha de entulho de R$ 12,99.
(Você vai dizer que DVD é lixo tecnológico, que o iTunes – para os honestos — e os torrents — para os “práticos” — tão aí. Que a gente compra DVD para guardar e ver uma, quiçá duas vezes o tal filme. Que depois ocupará espaço em nossas casas e vidas com essas caixinhas e suas capas invariavelmente barangas e apelativas. Quando então daqui a dez anos, num surto reordenativo, botaremos tudo fora de uma só vez, fazendo a alegria de um eventual catador de dejetos. Você vai dizer isso e eu vou fazer sabe o quê? Concordar.)
Boa Noite e Boa Sorte é desses filmes irresponsáveis que faz um jovem ingênuo pensar que jornalismo é uma profissão séria. George Clooney, dono do filme, devia beber seu gin e comer seu harém em vez de ficar aí, brincando com os sonhos da juventude.

Caráter é um problema
À parte nosso macho Edward R. Murrow, que fala por si, há outra personagem ali, meio oculta, meio subterrânea, que me chama a atenção. Mais que uma persona, um conceito de gente: Jack O`brien, colunista de jornal, cão de briga de seu patrão William (Randolph Hearst, o magnata) e jornalista opiniático a serviço da direita chiliquenta. No filme, Jack O’brien se ocupará de difamar Murrow e seus colegas, provocando suicídio de um deles.
Jack O’brien há muitos por aí, hoje e sempre. Daí entendê-lo mais como conceito do que como personagem.
Quantos Jack O’brien atuam hoje, no Brasil por exemplo, confundindo o público em vez de informá-lo, acusando “ranços ideológicos” que eles mesmos possuem, que seus próprios veículos possuem?
Jack O’brien, o intelecto prostituído, está sempre de prontidão (profissional exemplar! orgulho do papai), e está em toda parte. Porque Jack O’brien não é uma pessoa, é a lacuna de caráter em cada pessoa.
No ramo das comunicações, gosto particularmente das frases que Jack, o conceito, usa para justificar o que é e o que faz. “Preciso me firmar”, quando jovem; e “Tenho contas a pagar”, quando velho.
Ou, nos casos mais graves: “Ética é poesia parnasiana”.
Quantos Jack O’brien você já viu por aí?
* * *
Cassino eu já vi umas 10 vezes, e comprei pelo seguinte: não tem filme melhor do que esse. Pode ter igual. Mas melhor não tem.

Terno e gravata são para homens sérios
Eu vi Cassino em 1996 no Cine Pathé, na Cristóvão Colombo, em BH. Fazia dois anos que eu não ia ao cinema, por falta de grana e interesse talvez, mas aí o Pathé inventou um ingresso a R$ 2 e lá fui.
O filme explodiu na minha cara desde a primeira cena. Fiquei eletrizado durante e catatônico depois. O mais curioso é que, se eu o visse hoje pela primeira vez, talvez nem gostasse tanto. Pesariam contra a narração cruzada de vários offs, o moralismo sub-liminar do roteiro e… e… bah! A quem engano? É impossível não babar num filme com essa trilha, com esse capricho visual, com esse elenco, com esses diálogos, com essa visão sobre o homem e todos os seus vícios.
Quanto mais eu vejo Cassino, mais detalhes se revelam. É um filme sem fim — no bom sentido.
* * *

Muita faca para pouco filé
Na Globo, revendo Sr. e Sra. Smith. Os diálogos são bons, vamos admitir. Mas o filme não tem desfecho, vamos admitir. O casal toma algo de Bonnie & Clyde e suas rajadas de balas, o sangue sensual talvez, o tesão histérico do perigo talvez. Mas em vez de uma tragédia romântica, propõem a comédia da “discussão da relação” , de fato risível e inadequada em qualquer lugar — seja num restaurante ou num tiroteio. Pessoalmente, gosto de ver a cozinha e acessórios ToolBox virando pó. Celebração ou zombaria? Enigmas de um entretenimento fugaz.
* * *
No Canal Brasil, revendo Dona Flor e seus dois maridos. Envelhece mal a obra-prima de nosso cinema. É um tal de áudio desencontrado, falas artificiais (desde quando puta baiana de cortiço fala “sente-se, por favor”?), e ademais inconsistências que nem o realismo fantástico de Jorge pode explicar.

Bahia de Jorge que tem sim todos os encantos, mas jamais vai atrair 12 milhões de pagantes por si só. As monstruosas filas de 1976 se formaram para ver Zé Wilker comendo Sônia Braga de quatro, e não as cores vivas do Pelourinho. Aliás Sônia Braga pelada, em tempos de censura hipócrita e ditadura suja, era a própria imagem da purificação.
Como sempre, Eros salvando os homens de sua própria moral…
* * *

Detalhe: ele não tinha nome
No TNT, revendo um prazer cinematográfico proibido: Clube da Luta. Difícil crer que filme assim tenha sido produzido nos EUA, nos extertores do governo Clinton. É como se o pessoal lá dissesse à moçada: “Olha, nós podemos fazer isso, nós podemos zombar do sistema e refletir sobre o que somos. Mas vocês querem isso?” A resposta todos sabem. Mas Matrix, também de 1999 e de petulâncias similares, foi um sucesso. Onde diabos este Clube errou?
Acusam-no fascista. E é mesmo, porque os produtores não tiveram culhões de associar a subversão à Liberdade, ao livre-pensar, preferindo — como sempre — fazer dela vilã. O discurso de Tyler descamba para terrorismo, chauvinismo, militarismo, etc. Fazer o quê… Mas ainda assim é denso, é sofisticado, é intrigante. Um texto com tal fartura de idéias faz bem — a alguns.
Ah, se todo filme chupa-livro fosse assim, e nos pusesse atrás de novas e velhas leituras, em vez de substituí-las, pervertê-las, esquecê-las…
* * *

Sonhos de consumo ao som de Phil Collins
Por fim, ainda à procura de uma interpretação satisfatória para Psicopata Americano. Uma alegoria macabra do delírio yuppie, do grand-monde novaiorquino? Uma crítica visionária aos metrossexuais? Quem tenta entender essa jogada sozinho pode se machucar.
Por isso, pedimos ajuda aos druídas (ainda sob regras ortográficas vencidas). Um deles, Isabelaboscovix, mais conservador e moralista, nos diz: “uma fábula perfeita para os dias de hoje, em que essa cultura ultracompetitiva e ultra-aquisitiva representada pelo protagonista se tornou contagiosa.”
Outro, Omelix, mais omelético e de menos recursos vocabulares, diz: ”Curiosamente, a violência gratuita nos cinemas não causa tanta polêmica. Mas, se ela traz consigo uma reflexão, uma crítica à sociedade, muitas vezes é ignorada.”
Mas somente um grande druída, Pablovillacix, nos dá uma luz decente: “Em um mundo onde o poder chega antes da maturidade, são detalhes superficiais como este — um cartão de visita — que contam. Assim como saber quem possui o carro mais caro; o apartamento melhor localizado; e por aí afora. Com o decorrer do tempo, estas pessoas atingem uma total ilusão de grandeza e onipotência.”
Minha questão atual é a seguinte: se esse psicopata yuppie vivesse no Brasil, onde o encontraríamos? Na direção de uma agência de publicidade de São Paulo? Num leilão de espermas de girs em Barretos? Numa cobertura na Barra da Tijuca? Na esplanada dos ministérios em Brasília? Dentro de nossas casas? Dentro de nós mesmos?
Só sei de duas coisas:
1) esse cara teria um iPhone. Sobretaxado, claro.
2) o giga-consumo sempre promete, mas nunca salvou o mau-gosto musical de ninguém.
3 Comentários
Janeiro 18, 2009 às 11:40 pm
Recuso-me a acreditar que o sr. HMilen tenha comprado DVD nas Lojas Americanas. Agora sim, como diria Mozahir Salomão Bruck, o fim do mundo está acabando…
Pelo menos ele escolheu dois bons filmes (Casino e Good Night, and Good Luck)
No caso de Casino, nunca esqueço a cena em que Joe Pesci escarra num sanduíche. É uma analogia ao comportamento padrão daqueles que se vingam em silêncio…
n.e.: JP foi ver outra comérdia na Campanha de Pastelização do Teatro.
Janeiro 22, 2009 às 1:43 am
Vá ao teatro, mas não me chame.
n.e.: Nem se for depois de Caminho das Índias?
Fevereiro 2, 2009 às 3:37 pm
Acusam no fascista. Luiz Nazário?
n.e.: entr’outros.