Janeiro 22, 2009...12:29 am

[ Sebunes Nastião ]

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Chega de papo-cabeça nesse blog.

É verão. Vamos falar de celebridades, para que muiés voltem a comentar.

Sebastião Nunes, por exemplo.

Seu poema “As Rampas do Palácio”, reproduzido (porcamente) acima, trata a política como o que ela nos parece ser: pornografia. 

Foi censurado (quando havia censura em Minas). 

*

O jornal O Globo definiu nosso homem recentemente (17/1/2009) como “talvez o melhor escritor brasileiro do qual você nunca ouviu falar.”

Obviamente o jornal se referia a seu ignorante leitor carioca. Em seu torrão natal, Bastião Nu é uma celebridade e mal pode circular pelas ruas do Centrão. Populares ávidos por um autógrafo do autor de História do Brasil e Decálogo da Classe Média causam tumulto e avacalham o trânsito.

Não podendo frequentar Shopping Oyapoc e imediações, Sabião Bestunes vive então recluso em Sabará, onde lhe chegam água, laticínios, protetor solar e xampu.  

Nosso poeta bocaiuvense foi e é admirado por gente como Drummond, Antonio Candido, Silviano Santiago e Flora Sussekind. E por qualquer um que um dia tenha tentado cravar uma frase com profundidade e humor.

Porque Tião (ó a intimidade) é um samurai do nível de Millôr.

Millôr que se “recusa” a falar do colega Tião, como quem se recusa a falar de si mesmo. (não é humildade; é auto-preservação, seus laicos!)

*

O grande livro de Sebastunes Nião eu suponho seja Somos Todos Assassinos, o doentio livro de 1980.

Um pato chacoalhando moedas presas nas penas do rabo. Um garboso dobermann babão que, com lambidas inconvenientes e incondicionais, salva o dono suicida.

Jamais esqueceremos tais imagens.

E se uma sátira adulta deprime a juventude, azar.

*

Tipógrafo, fotógrafo, contista, artefinalista, redator de publicidade, jornalista, pintor. Escritor, desenhista, diagramador. 

Como não se identificar com esse Tião diabólico?

Ao (bom) caderno Prosa & Verso, daquele O Globo, ele disse, à luz dos seus 70 anos:

 – Quando tive de ganhar a vida, tinha duas opções: jornalismo ou publicidade. Mas jornal exige muito, trabalho diário, é pauleira o tempo todo. Publicidade, não. Você pede 15 dias fazer uma campanha, enrola 12 e faz nos 3 últimos dias. E se não fizer, sempre pode pedir mais prazo. Mas é uma profissão absolutamente idiota, em que você é obrigado a vender produtos inúteis ou idéias sem grandeza. Aliás, quase sempre os próprios publicitários são idiotas completos.

Sobre o livro Decálogo da Classe Média, recém-relançado, disse:

– A classe média é a típica empata-foda, que está no meio de tudo para atrapalhar tudo, com seu egoísmo imenso, sua absoluta insignificância existencial, seu consumismo sem limites, sua idiotia e sua paranoia.

*

Ler Sebunes Nastião (um de seus muitos anagramas auto-avacalhativos) é ir no cerne de incômodas verdades sobre essa nossa “realidade de merda” — no dizer de Darcy Ribeiro, otimista célebre.

É deparar com o espelho que nos revela camundongos, a foto que nos flagra borrão. Mas tudo com humor sacana, devastador ou, se um adjetivo tiver de ser escolhido: genial. 

Verdades incômodas, algumas amargas demais para bons corações, outras inúteis demais para certos espíritos.

Mas verdades. 

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