Fevereiro 3, 2009...5:08 pm

Inhotim macabro

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[ Propostas e regras para uma nova forma de arte ]

*

Depois do quinto acidente no trecho Vale do Aço / BH, no pós-reveilão, comecei a (acidentalmente) lucubrar perversões semânticas. 

A recente ida a Tiradentes não me deixa mais dúvida.

Temos um novo problema vocabular.

“Acidente” se tornou uma palavra errada, que mais nada diz. Um jargão bocó. Não faz mais sentido usar “acidente” para se referir a veículos emaranhados no asfalto. 

“Acidente” é um revés inesperado, um anti-plano humano. Não é o que ocorre nessas estradas. Nelas, as batidas não só são previsíveis como consumadas

Então, “acidente”? Como?

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A primeira proposta do dia é substituir o termo “acidente” por “instalação”.

“Instalação” é um termo mais abrangente. Esses sacrifícios carnais em nome do deus Carrus nos altares-rodovias há muito merecem um novo status conceitual. Tornaram-se um fenômeno cultural contra o qual as leis e as políticas, se é que um dia existiram, parecem totalmente ineficazes. 

Então, se é cultural, que seja tratado culturalmente. Que saia da editoria de urubu e vá para a editoria de viado. 

Que esses artistas saiam da alçada do Detran para as secretarias de cultura. Que, em vez de impostos abusivos como IPVA e ICMS, obtenham incentivos pela Lei Rouanet.

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Sim, nossas estradas são grandes museus de arte contemporânea de baixa qualidade (porque previsível). Museus alimentados pelo talento e pelo suor do incansável motorista nacional e seu rústico artesanato. São as batidas, os abalroamentos (PM gosta desse termo), portanto,  as obras autorais, o algo a ser visto. O destino das viagens torna-se secundário. 

O motorista, em sua insignificância condutora — que a publicidade cínica vende como “liberdade” — revolta-se inconscientemente e se torna um contestador, um subversivo, um grafiteiro selvagem. 

Haverá restrições para esse artista que usa a carne do seu semelhante como matéria-prima. Isso pode ser bom. Uma arte condenada à polêmica (por sua natureza sangrenta) e ao mainstream (por estar sempre na mídia). 

*

Nossa segunda proposta é tão econômica quanto pedagógica: a não-remoção das ferragens das estradas. 

Que apenas se libere a pista, amontoando as instalações no acostamento, para que novos artistas se revelem, novas obras sejam expostas e assim construamos conscientemente nosso grande Guggenheim rodoviário.

Seria de bom proveito a todos.

Que observemos dia-a-dia nosso legado de lata retorcida, para que ao longo das décadas, acuados pelo nosso próprio barbarismo, avancemos alguns milímetros morais.

Aceitarmo-nos autores e artistas seria muito mais eficaz do que aturar esse blablablá infanto-juvenil da Polícia Rodoviária à véspera do feriadão (teremos muitos em 2009! o ano da arte nas estradas!…) bem como as patéticas coberturas jornalísticas da tragédia alheia.

*

Nas estantes, num futuro distante:

- Scriiiiiinch! - O impacto dos impactos na indústria cultural

- 1000 instalações rodoviárias para ver antes de morrer

- Revista BRAVO! 100 desastres essenciais

- Ultra/Passagens. A poesia sangrenta da rodo/via.

(sempre lembrando o ultra-pioneiro Crash, apresentado por J. G. Ballard em 1973, antecipando boa parte desses delírios…)

11 Comentários

  • Genial.

    n.e.: Lacônico. (lacaniano?)

  • Se HMilen conseguisse a CNH, seria um acidente.

    acid_
    _ente

    “Ente ácido” ou seja, sinônimo deste blog. :D

    Parece o Kibeloco… “A verdade é ácida e o quibe, cru”.

    Obs.: Senhor HMilen, não sente vergonha por ter de entrar no nível básico de curso de inglês?! :D

    n.e.: a ideia é evoluir rápido — basicamente.

  • Cordeiro Valadares

    mais arteiros em inhotim

    http://www.youtube.com/watch?v=OxnTnN3rbdI

    “é mt legau!”

    n.e.: Ontem, o barroco; hoje, o barranco.

  • Assim como o termo “acidente” deve ser substituído por “instalação”, o termo “indústria de mercado” também deve ser substituído, já que é o suporte desse retrato de dorian gray, essa cadáver que ri na sala de estar, essa beba que fez botar fogo nas nas saias e agora tem de girar girar pra não queimar as pernas, essa flagelo que já fez a natureza maximizar a população feminina nas espécies em sinal de alerta.

    n.e.: “Indústria de mercado”?

  • “Que apenas se libere a pista, amontoando as instalações no acostamento, para que novos artistas se revelem, novas obras sejam expostas e assim construamos conscientemente nosso grande Guggenheim rodoviário.”

    Mas já fizeram isso. Vira e mexe a Polícia Rodoviária exibe carcaças de acidentes e até fotos pros que têm estômago forte, em uma tentativa da chamada “conscientização”. Quase sempre não funciona, acaba virando apenas mais uma maneira de “apreciar a arte” da barbárie e exercer seu lado urubu de ser.

    Valdisney nunca acertou tanto quanto naquele desenho em que o Pateta entra no carro sossegado e ao pegar no volante transforma-se num maníaco…

  • Tentei não incluir a indústria de economia de recursos

  • stop

    o milen pirou

    ou fui eu

    [porca poesia tá na moda, é o que dizem poraí]

    n.e.: porca poesia / indolente, vã / só provoca azia.

  • há muito a arte contemporânea se irmanou com o chocante, o grotesco.

    pintos a desfilar nas galerias, um cão posto a morrer de fome na bienal (foi pauta desse blog), cadáveres como obra de arte – lembram dos chineses?

    a arte não está mais na obra, mas no conceito do curador, na interpretação e legitimação da crítica.

    daí que essa tese desmonta o esquema da ilustração proposta pelo nobre blogueiro, visto que, nesse caso, polícia (estado) e curiosos (cidadãos?) são incapazes de dar sentido, extrair qualquer conceito ou intepretação da catástrofe que a torne qualquer coisa mais que a carnificina diária sem culpados que vemos estrada à fora.

    o que de forma alguma descredencia o post, pelo contrário, já que aqui, sim, do ferro retorcido, se produziu alguma inteligência.

    n.e.: quanto mais choque, mais bocejo.

  • Henrique, há tempos espero que alguém crie a associação usuários da BR 381, cujo logo poderia ser um pneu furado circundado por cruzes vermelhas com uma delas em destaque pelo título de campeã. Mas agora é tarde, pois a duplicação parece que vai sair do papel.

    n.e.: não faltará concorrência à campeã.

  • Coitada da BR-381, a rodovia tem pouca ou nenhuma culpa pelos animal que ultrapassam no meio da curva cega, ou pelo serviço porco feito pelos pião da Uzimina que não amarram direito a disgrama da bubina de aço na carreta que cai e leva embora o motociclista e o Unomille.

    n.e.: Unomille na BR já tá errado calado.


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