
Madame burguesa: ela vai morrer para que você cresça
Delphine Delamare, mãe jovem (27 anos é jovem, não?) e bem-casada com médico apaixonado, estava angustiada. Insatisfeita com a rotina de dona-de-casa, endividou-se com roupas caras e objetos supérfluos. Entediada, até pulou a cerca. Sob pressão (dívidas e adultério), envenenou-se.
Comentaristas conservadores provincianos tomaram o caso como um exemplo do declínio do respeito pelo casamento entre os jovens. Do crescente consumismo na sociedade. Da perda dos valores religiosos.
Isso foi em 1848, na Normandia.
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Gustave Flaubert leu a notícia da morte de Delphine no jornal. Mas não partilhava do moralismo crasso. Reimaginou a história sob a ótica da suicida e rebatizou aquela Delphine como Emma Bovary.
Por ter trazido ao público verdades da vida até então ocultas, Flaubert foi levado a julgamento por atentar contra a moral e a religião.
Mas graças talvez ao bigode nosso amigo foi absolvido, Madame Bovary atravessou 15 décadas como romance maioral e chegou até mesmo às periferias da civilização — onde é conhecido vagamente pelo nome.
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Um filósofo de nosso tempo, cuja prosa é inteligível ao leitor comum, ou “pop” segundo os aiatolás academicistas, imaginou uma manchete de jornal para o caso Emma Bovary:
ADÚLTERA CONSUMISTA BEBE ARSÊNICO POR FRAUDE EM CARTÃO DE CRÉDITO
…sugerindo-nos que os jornais tratam a tragédia humana com desleixo e insensibilidade, utilizando linguagem ao mesmo tempo indiferente e condenatória.
Este filósofo se chama Alain de Botton e escreveu um livro chamado Desejo de Status, defendendo que o mesmo seria a principal causa de sofrimento dos seres humanos. Nosso amigo Alain sugere filosofia, arte, política, cristianismo e boemia como soluções contra essa lepra mental.
Mas quando fala de arte, ele dá atenção especial à arte trágica em geral e à nossa Madame em particular. E por quê? Porque segundo ele (e com nossa anuuência), o sofrimento mostrado através da arte educa o espírito.
Mas tente dizer isso a uma patty esvoaçante do verão tropical, e ela te responderá com aquele ladrido automatizado:
– De deprê já basta o mundo real!
com a tradicional faixa-bônus
– no [ cinema, teatro ] eu quero é dar risada!
etc e sal
Contudo pattis e madames, ou mesmo janotas pragmáticos, deveriam se interessar por essa conversa. Pelos motivos já ditos e por esses outros que direi.
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Aquele mesmo Alain nos diz que uma obra de arte trágica faz com que tenhamos uma certa consideração pelo fracasso dos outros. Bem maior do que teríamos normalmente. Porque uma obra trágica nos leva a sondar as origens do fracasso. E assim, entender e perdoar mais. Compreender. Ser menos reaça e reativo, enfim.
Olha que coisas lindas:
“Uma obra trágica nos leva com habilidade pelos degraus minúsculos e inocentes que ligam a prosperidade de um herói ou heroína e sua queda e o perverso relacionamento entre intenções e resultados. No processo, é improvável que conservemos por muito tempo o tom indiferente ou vingativo que teríamos ao ler aquela manchete de jornal.”
“Terminamos o romance de Flaubert com medo e tristeza por sermos feitos para viver antes que possamos saber como, pela limitação de nossa compreensão de nós mesmos e dos outros, porque as consequências de nossos atos são grandes e catastróficas, e pelo grau a que nossa comunidade pode ser impiedosa e intransigente em resposta a nossos erros.”
“A tragédia nos inspira a abandonar a perspectiva da vida sobre fracasso e derrota e nos torna generosos com a tolice e as transgressões endêmicas a nossa natureza. Um mundo onde as pessoas tenham absorvido as lições implícitas na arte trágica seria um mundo onde as consequências de nossos fracassos deixariam de pesar tanto sobre nós.”
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Quando então chegamos a Revolutionary Road, esse idílico endereço da boa perifa de Connecticut, onde Kate Winslet e Leo di Caprio sonharão a vida que não têm.
A senhora April Wheeler, vivida por Kate e concebida pelo escritor Richard Yates, está em toda parte, em todas as épocas. Ela é irmã-de-fé de Emma Bovary, a mais trágica das madames.
Do livro americano nada sei, mas o filme de Sam Mendes tende a frustrar platéias guiadas pelo moralismo consensual e seus finais felizes. É trágica e, diferente daquele subúrbio de Beleza Americana (também de Sam Mendes), não há vilões identificáveis. Há somente um belo e jovem casal. E um sonho que baila no ar e os nocauteia. Como julgá-los? Como negá-los? É só o peso da vida e nada mais.
Madame Bovary está viva.
Vive hoje menos sufocada que em 1848, é verdade, mas ainda se endivida com roupas supérfluas e por vezes se sente jogada no vazio.
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A arte trágica educa e faz crescer. É o oposto daquilo que Fátima Bernardes noticia todos os dias para os habitantes da província.
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Ademais, atribui-se a Flaubert a seguinte frase:
“O que o dinheiro faz por nós não compensa o que fazemos por ele.”
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P.s.: Revolutionary Road foi lançado no Brasil com o nome de Foi Apenas Um Sonho. As traduções babacas são uma guerra perdida.
7 Comentários
Fevereiro 8, 2009 às 9:29 pm
Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary e como prêmio, foi acusado pelo governo francês de ter escrito uma “obra execrável sob o ponto de vista moral”. Mas, para alegria do realismo e seus seguidores, foi absolvido pela Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena, em Paris, em fevereiro de 1857.
Se ele fosse do romantismo, teria suicidado após ser processado, e assim para tornar-se-ia um mártir da literatura…
n.e.: indignação de político consagra qualquer livrinho.
Fevereiro 8, 2009 às 11:58 pm
Sainct Dieu, não sei se já li ou ouvi frase mais memorável do que esta de monsieur Flaubert. Não sei.
Fevereiro 9, 2009 às 2:47 am
Acho que H anda meio Bovary
n.e.: Madame merece comparação melhor.
Fevereiro 9, 2009 às 1:31 pm
Sobre uma consideração trágica da vida, nada mais trágico do que perceber que o sentido da vida é uma construção no nada, só pela beleza de construir: o fundo da ética é estético – Os loucos, suponho, já descobriram. E também os incompetentes, em geral. E, obviamente, os suicidas!
[Rapá, a convergência de leituras anda me intrigando!]
Dizia, acho, outro franco, Rimbaud, que o Insuportável é que nada é Insuportável!
Estampar-se-ia, tais impropérios, como chamada para um domingo inteiro na TV?
n.e.: acredito que haverá audiência. Sempre há.
Fevereiro 9, 2009 às 4:58 pm
Ai ai.
Vi esse filme ha dois domingos.
Assino embaixo. De tudo, inclusive da April.
Em francês, o filme ganhou o nome de algo parecido com “As bodas rebeldes”. Mais uma tradução babaca.
Excelente texto, H&M – inspirado, hein!
Fevereiro 11, 2009 às 6:47 pm
coisas da vida…
no dia em que a Carulina viu esse filme, chegamos a conversar pelo gtalk.
eu falando de sonhos (e o que fizemos deles) ela, ainda sob efeito do filme, dizia “vai atrás dos seus que eu também vou atrás dos meus…”
é, H. Milen, muito bom o seu texto.
n.e.: Carolina tá sem lenço e sem documento.
Dezembro 1, 2009 às 8:19 pm
Bom Madame Bovary é um romance francês, e em cinco anos de reescrita do livro percebe-se que deixa livre aos intelocutores tirarem suas conclusões e suas próprias indagações sobre as atitudes tomadas de madame Bovary, será ela a cada capítulo se liberdava do mundo que a sociedade impõe com ideais a serem seguidos?ou simplismente foi imoral?Creio que a solução seria somente uma DEUS.