Fevereiro 10, 2009...1:33 pm

Talhos e retalhos (alguns tatuados)

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“Quod me nutrit me destruit”
(o que me nutre me destrói)

“A prayer for the wild at heart, kept in cages.”
(uma prece pelos rebeldes de coração enjaulado — tradução equivocadamente livre)

…frases tatuadas no corpo de Angelina Jolie. Uma é de Tennessee Williams. A outra, em latim, é de Ronald McDonald.

* * *

Por quê, meu Deus, por quê?

…a resposta para a pergunta moralista médio-classista acima foi dada pelo ex-jogador Sócrates, na semana seguinte, numa publicação concorrente.

Seguem trechos de uma prosa rebelde — para os puros de coração:

(…) A primeira e definitiva instituição com que tomei contato no futebol foi com a famigerada “concentração”. Era inacreditável que naqueles tempos tão “modernos” ainda se utilizasse tamanha aberração.

No início, o isolamento compulsório às vezes ultrapassava 48 horas a cada jogo. Como fazíamos duas partidas por semana, tínhamos menos tempo livre do que os condenados em regime aberto. O pior é que ficávamos em uma casa apertada, cheia de beliches, literalmente uns em cima dos outros.

De cara, passei a questionar aquela prática. Não podia entender como as razões de sua existência podiam ser tão frágeis. “Para que vocês não façam besteiras”, diziam. Até parece! E o pior é que entre as besteiras incluía-se o sexo. Ora, façam-me o favor. Desde quando o ato sexual atrapalha o quer que seja? Só se for na cabeça dos gênios que comandam o futebol.

Com o tempo, consegui encurtar o absurdo: 24 horas no máximo. Ainda era muito. Como estava na faculdade, passei a me escalar nos plantões de sábado. Assim, não perdia o meu tempo naquela escola que só ensina a não fazer absolutamente nada.

A pior coisa do mundo é a ociosidade. E isso é o que não falta num ambiente desses. Também descobri que o que provoca o desatino de beber em demasia (ou o uso de outras drogas) e da busca incessante por mulheres é exatamente essa prisão.

Imediatamente após a libertação se quer fazer tudo o que não pôde ser feito. E isso, em poucas horas. É o resgate do tempo inutilizado. É a compensação. É uma forma de reagir. É a insubordinação sem controle, é verdade. Mas não tenho dúvidas de que é da concentração que nascem os desvios de conduta de nossos jogadores. De orgias a baladas, passando pelo assédio sexual. Ora, deixem os meninos crescer!

Chegando ao Corinthians, com a implantação da Democracia Corintiana, um dos assuntos mais interessantes para mim era a dita-cuja. A turma não queria, porém, mudar. Também, a concentração serve para protegê-los da opinião pública! Demoramos seis meses para torná-la opcional.

A partir daí, a vida passou a ser uma maravilha. Ficávamos em casa, brincávamos e educávamos nossos filhos, jantávamos com nossas famílias, comíamos o que estávamos habituados com o tempero que gostávamos, dormíamos com nossas mulheres, fazíamos sexo – por que não? – à noite e quase sempre pela manhã, tomávamos nosso café, acompanhados de nosso jornal predileto, líamos um livro antes de ir para o hotel, chegávamos com a família, nos confraternizávamos e íamos todos no ônibus para o estádio.

Corríamos como crianças. Tínhamos prazer em jogar, nos divertíamos e divertíamos nosso fiel público. Era um tesão. Tesão de viver e atuar com liberdade, porém com maior responsabilidade em relação ao nosso trabalho. Os resultados todos conhecem, mas o mais importante de tudo gerado por lá foi a maturidade adquirida por todos os companheiros. Muito diferente dos dias de hoje ou da própria história dos jogadores brasileiros.

(Coluna Pênalti, Carta Capital, 6/2/2009)

* * *

Um gato preto surge do nada, à porta de Neil Gaiman.

Para quem já cuida de cinco, o sexto não é problema.

Só que o gato aparece machucado toda manhã, como se tivesse lutado contra um bicho selvagem durante a madrugada.

Com dó do bicho, seu dono o põe no porão, a salvo das ameaças da noite.

É um grande erro.

Demônios entram na casa e na vida do homem.

Pois é contra eles que o gato lutava, enquanto os humanos da casa dormiam.

Neil Gaiman está certo. Acreditar que os gatos nos protegem de nossos próprios demônios é tão válido quanto acender uma vela a São Judas Tadeu. E um pouco mais sofisticado que entregar dinheiro para um camelô de terno barato que vende lotes no paraíso. 

[ Essa HQ ("O Preço") foi publicada no Brasil pela Pixel Media no livro Criaturas da Noite. ]

*

“É só um dia qualquer
Quando as pessoas despertam de seus sonhos.”

Oingo Boingo, “Just Another Day”

4 Comentários

  • “Se o meu médico me dissesse que eu teria apenas seis minutos para viver, eu não ficaria remoendo. Eu digitaria um pouco mais rápido.” Isaac Asimov

    “Só espero e desejo que ninguém se torne ‘junguiano’. Eu não represento nenhuma doutrina, mas descrevo fatos e apresento certos pontos de vista que julgo merecedores de discussão. Critico na psicologia freudiana certa estreiteza e preconceito, e nos ‘freudianos’ certo espírito rígido e sectário de intolerância e fanatismo. Não advogo nenhuma doutrina pronta e fechada e abomino ‘partidários cegos’. Deixo a cada um a liberdade de lidar a seu modo com os fatos, pois eu também tomo esta liberdade para mim.” Carl Gustav Jung

    n.e.: JP sem Wikiquote nada diz. Com, também.

  • O que desmoraliza a Democracia Corinthiana é o fato cabal de ela não ter ajudado o Coríntiã a ganhar nada que prestasse.

    Daí a galera prefere a Ditadura do Resultado.

    n.e.: e tem corintiano com mais saudade do Médici do que do Sócrates.

  • opa, ofendendo leitores gratuitamente. na entrada da minha casa tem um s. judas familiar que, junto às plantinhas, me faz companhia. vou começar a frequentar blogs, menos intolerantes. =)

    n.e.: Nada contra S. Judas; vc é que tem algo contra os gatos.

  • Oingo Boingo não é, de fato, um aforismo previsível.

    n.e.: aguarde os de Biquini Cavadão e Jammil e Uma Noites.


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