
Leal cumpridora de ordens. Funcionária exemplar?
Havia uma igreja em chamas, e 300 mulheres presas dentro dela (essa humanidade não toma jeito).
As guardas “responsáveis” pelas presas mantiveram a porta trancada e não permitiram que saíssem.
Permitir a fuga das presas seria descumprir uma ordem. E a primeira lição aprendida nos quartéis — sejam eles genocidas, republicanos ou empresariais — é o respeito à hierarquia (uiuiui).
Julgada por crime de guerra, uma dessas guardas simplesmente não entende como um juiz pode acusá-la pelo reto cumprimento de suas funções.
Essa guarda se chamava Hanna Schmitz, e sobre ela falaremos adiante.
* * *
[ Um post disperso para uma audiência dispersa. É Carnaval. ]
* * *
Amamos o Youtube.
Amamos o Youtube porque ele desmoraliza os charlatães.
Todo vídeo sobre ovnis, ETs, fantasma, bruxaria, milagre etc é globalmente esculhambado pelos comentaristas.
Avaliações técnicas ou simplesmente racionais, apontando a fraude ou desmistificando as imagens são sempre mais convincentes que o nosso insistente entusiasmo pela macumba e pela metafísica.
É como um balde de água fria no fogo do inferno. O além-túmulo, o xangrilá cada vez mais patrimônio imaterial dos analfabetos funcionais.
Viver o dia de hoje é se ver privado daquele direito sagrado (honrado pelos nossos ancestrais) de ser um crédulo pateta.
Porque essa história humana tem sido também a história de como o charlatanismo explora a fé e a ignorância dos povos.
De como clérigos meteram suas patas nas chaves das bibliotecas e as trancaram.
Ou mesmo as queimaram.
Os nazistas atearam livros em fogueiras armadas nas praças de suas cidades frias, sim, não-me-diga.
Horror? Só para intelectuais humanistas…
Qual patriarca proletário, em qualquer buraco do mundo, nunca quis uma festa como essa? Uma quermesse aquecida pela queima de papeis profanos? Quem nunca esperneou contra o acesso livre à informação? Com a livre discussão sobre um tema que lhe fosse “sagrado”?
Agora imagine isso — essa tara secreta dos trabalhadores — misturado com concentração de poder. Com perseguição a vozes dissonantes. Um sistema de desinformação zelado por jovens soldados semi-analfabetos.
O inverno do Reich é passado, virou caricatura. Mas nossa perifa tropical não lhe reserva grotescas semelhanças?
*
Minha visão de paraíso é um lugar onde todos têm acesso à informação que procuram. E ninguém persegue ninguém por isso. Eu sei que é impraticável, dados os interesses que nos governam. Mas o mundo virtual, com sua irresistível comunicação de muitos para muitos, cuida de nos aproximar desse paraíso.
Virtualmente.
* * *
[ voltemos a Hanna e suas implicações ]
Não somos objeto das lições de O Leitor, filme de Sir Stephen Daldry (o homem responsável pelo melhor filme inglês da década), adaptado do livro que Bernhard Schlink lançou em 1995.
Há muito já sabíamos que a ignorância é vizinha da maldade. Que nossos atos valem mais que nossos pensamentos. Que o Mal não reside num monstro, em vilões arquetípicos, mas sim em pessoas comuns, em pensamentos comuns.
Mas mesmo assim fomos ver Kate pelada outra vez, porque Kate pelada nunca é demais.
A Hanna de Kate é insegura durante o julgamento. A Hanna do livro é mais convictazinha, mais “sou sunga preta sim, e daí!?!”.
Dado momento, ambas perguntarão ao juiz: ”O que o senhor teria feito?”
A Hanna do filme transmite mais espontaneidade e desespero ao fazer essa (crucial) pergunta. A do livro mantém a frieza, é mais cínica.
[ Prefiro essa Hanna do filme, mais complexa. Cumprimentos a Stephen e Kate. Mas nessa categoria Reich-movies, filme de macho é O Pianista, de Polanski. Sem blablablá de novela, sem moralismo, sem racionalização neocon barata e, acima de tudo, sem três epílogos melodramentos. Kubrick certamente também faria um Reich-movie de macho, mas seu Aryan Papers não saiu do papel ]
*
Algum porco-do-mato dirá que tanto Nazismo quanto Holocausto são episódios superados historicamente. E superdimensionados por meio do cinema judeu de Hollywood. Cansados, drogados ou debilitados mentalmente, poderemos até concordar.
O torpor, contudo, será breve.
O chilique de uma sirene duma viatura policial nos acordará. Os estampidos do Chapéu Mangueira e de Paraisópolis (“Sob controle”) não deixarão qualquer dúvida.
O Mal — este Mal segregacionista, em que um stablishment esculacha minorias acuadas nos guetos — está muito vivo entre nós.
Como o próprio desejo de queimar toda palavra que ofenda convicções.
*
Eu vo-lo digo, ciente dos raios que me virão à cacunda, que um patriarca proletário brasileiro de 2009 não é moralmente superior a um patriarca proletário alemão de 1938. Acuado pelo desemprego, ele seguirá a mesma nazi-cartilha: procurará bodes imigrantes e encontrará conforto espiritual no simplismo fascista.
“O fascismo é fascinante e deixa a gente ignorante fascinada.” (Engenheiros, Toda Forma de Poder)
Em troca de um salário, lavará as mãos diante de qualquer desumanidade. Será sempre um funcionário exemplar, sem maiores pruridos éticos. Em tempos de crise, se o único trabalho disponível for fritar seu semelhante, ele aceitará esse trabalho.
*
Qual militar brasileiro hesitaria em queimar 300 prisioneiros caso se sentisse “responsável” por eles, como Hanna Schmitz e suas prisioneiras judias?
E acaso não ouviria aplausos?
Ou silêncios sorridentes?
*
“E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”
(versos monumentais de Caetano, em Haiti)
*
Sabemos de todo horror que são as incursões policiais em cortiços e favelas, nas Varsóvias do Brasil.
Sabemos o que é um presídio brasileiro.
Sebemos até que o suicídio de presos nas cadeias brasileiras aumentou 40% no Ano da Graça Lulística de 2008.
Contudo reagimos como aqueles alemães de 1938. Se é que reagimos.
*
Eu sinto que, quando os alemães preservam os campos de concentração, não fazem isso em troca dos royalties das locações utilizadas em filmes, nem pelas moedas risonhas dos turistas.
Preservam porque é digno preservar. Porque manter o horror congelado e visível é uma maneira de impedir que ele escape.
(Um Inhotim macabro faz bem a todos.)
*
– Se você sabia que isso acontecia, por que não se revoltou? E se nada podia fazer, por que não se suicidou?
Essa frase pipoca em algum momento da projeção de O Leitor.
Ela remete a Primo Levi. Àquela vergonha de ter sobrevivido ao horror.
Pois depois de mergulhar na treva absoluta do ser, como alguém poderia ainda sentir qualquer orgulho por ser uma criatura humana?
Levi rolou numa escada ao fim da vida. Seus biógrafos clamam por suicídio.
Restou um livro que deveríamos ler: É isso um homem?
E junto dele a famosa pergunta: teremos tempo/coragem para lê-lo?
* * *

Falaremos sobre isso no próximo post
* * *
Já? De novo?
Oscar no domingo de Carnaval. A nerdice cinéfila total. Oscar é isso: um estímulo para um certo gueto cinéfilo geek (no qual me incluo) ver uns 5 bons filmes anglo-saxões em fevereiro, filmes esses que não têm sido necessariamente os melhores do ano — nem de língua inglesa, nem muito menos do mundo.
Pessoalmente, gosto de arriscar umas apostas, mais pelo gosto de decifrar o joguinho político daquela festa estranha do que por algum entendimento meu de cinema.
O novo clichê do Oscar é o blogueiro que tenta adivinhar os premiados. Então eu vou novamente frustrar expectativas: não vou tentar adivinhar porra nenhuma. Vou só ver os filmes, que parecem interessantes — mesmo Frost/Nixon, apesar de muito restritozinho aos EUA.
Só achei estranho um filme xarope e medíocre como Benjamin Button ter 13 indicações. Isso mostra que o carnaval californiano também tem samba de crioulo doido.
Tenho lido que o filme do Danny Boyle vai quebrar a banca, mas que o filme de Gus van Sant é melhor — mas não vai levar. Bom, a “Academia” (baranguice, isso…) se apequenou ao negar o prêmio para Brokeback em 2006, tá em dívida com os viado, e pode tentar corrigir isso com o Milk de Gus.
[ Hoje, na sala de espera dum consultório médico, li o Sean Penn na Contigo! (tá feia a coisa...) dizendo que Gus van Sant "não consegue fazer um filme irrelevante". O entrevistador, gentil (ou inepto), achou melhor não lembrá-lo daquele remake colorido de Psicose... ]
O Leitor, apesar de todo o hype deste post, soa como ‘Eichmann em Jesuralém’ diluído para mulherzinha. Pelo tema, pode até se dar bem. Espero que não. Seria como celebrar a diluição. Mas que outra coisa é o Oscar?
* * *
Unidos do Peruche está na avenida.
Evoé.
7 Comentários
Fevereiro 22, 2009 às 1:14 am
Só gostou do filme pela Cate Winslet pelada!!!
Ah, Sean Penn é nojento, não importa qual filme faça. O nacionalismo exarcebado dele fede…
Em tempos de carnaval o “fogo” é tema recorrente…
Fevereiro 22, 2009 às 1:23 am
Sempre cumprem ordens, mas preferam atirar no contribuinte desarmado que lhes sustenta do que enfrentar o soldado inimigo.
n.e.: Lei do Menor Esforço. Em vigor desde 150.000 a.C.
Fevereiro 22, 2009 às 1:25 am
Por favor: “lhes sustentam”
Fevereiro 22, 2009 às 6:58 pm
Também tenho errata: “exacerbado”
n.e.: isso é um caminho longo e sem volta, JP.
Fevereiro 27, 2009 às 11:40 pm
Este post me levou a pesquisar sobre o franquismo (e o seu prelúdio), onde acabei por pensar se não temos de fato duas opções políticas: a anarquia (que por incrível que pareça, foi mais longe na Espanha) e o escravagismo, que sempre recorre à força policial na hora do vamos ver. As outras parecem ser uma bem afiada conversa pra boi dormir.
n.e.: Boas opções. 5% dum lado e 95% do outro.
Março 1, 2009 às 8:46 pm
ah, você viu O Lutador? bom, bonito e barato.
vale o Mickey Rourke entrando pra briga ao som de sweet child o’ mine e a Marisa Tomei pelada não perde pra Kate.
n.e.: ainda não vi. Tô ocupando com os ruins, feios e caros.
Março 3, 2009 às 4:20 am
Parabéns por ser um dos poucos a denunciar corajosamente a matança promovida pela nossa puliça em nome do bem-estar da classe média nas Higienópolis e Lindéias deste Brasil varonil.
Pena que ninguém vá ler…
n.e.: Lindeia não tem mais acento. E o bus pro Lindeia (antigo 1113B) não tem assento.