Fevereiro 26, 2009...1:07 pm

Pictopost (III)

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[ resumo pictográfico da estação ] 

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Momentos decisivos no Brunswick. Éramos três às três da tarde.

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Era domingo. Ver uma cadela tomando sol na manhã de Tiradentes é melhor do que ir embora sem ver nenhuma.

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Era terça-feira. Convencemos os guardiães da paisagem que não éramos suicidas. Então pudemos contemplar Centrão de uma janela do Acaiaca. 

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El Che vai ao shopping. Entre action figures de mangás, cartoons e marvels, nota-se oblíquo e dissimulado Ernesto Che Guevara à direita de Pepe Legal. Sendo a imagem do comandante desprotegida (até o momento) por copyrights internacionais, seu boneco é ironicamente o único da vitrine em situação regular.   

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Todo dia o flamboyant faz tudo sempre igual. E colore o asfalto às seis da manhã. Eventualmente desequilibrando algum pedestre distraído, de bunda a cair e joelhos a ralar. Nem por isso seremos favoráveis à varrição das flores. Quem varre flor é neocon.

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Um garoto-propaganda perfeito. Jim Davis não viveu em vão.

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Especulação às 17h36. À direita, prédio alto, com vista para os quatro lados do Centrão. Eu quis alugar aquele puxadinho ali em cima. O pobrema é que não decidi praquê.

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Era sábado à noite. O televisor Disney 14″ rosa-choque reprisava A Favoirrc na loja de brinquedos no Diamond Mall. Um vendedor apareceu com uma teoria ZN sobre heróis e vilões. Ouvi. Eu gosto de um mundo com revólveres e lições de moral. Crendo-me alheio a neuroses glôbicas, comprei matchboxes para o filho do Anão. Matchboxes made in China são mais sofisticados que qualquer cultura popular made in Jacarepaguá.

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A persa de Lalá é calma. Mas se mexe demais para uma modelo. Ou o suficiente para jamais ser bem fotografada por um celular com tempo de resposta de 5 segundos. Se eu tivesse um gato, o nome de dele seria, claro, Peixuxa (o amigo dos peixes), independente do sexo. Vanessa reprova o nome, mesmo depois de introduzida à intrigante canção de Raul. 

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Toda vila é velha. Estivemos no litoral no início dos trabalhos de 2009. Eu já morri no mar uma vez, e ali fui salvo por um anjo uma vez. O mar me esculacha. “Você é um cético de araque, com sua dissimulação racional patética”, me diz toda vez. Eu me calo. Só discuto com quem é do meu tamanho.

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Era janeiro. Estivemos também em Tangará, abrindo informalmente a agenda do Ano da França no Brasil. Cachoeira, água na cacunda, não deixa de ser uma lição de humildade. Mas só aprende quem já sabe.

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A aurora virá. Interferência anarquista bombástica causou furor na esquina de Goitacazes com Espírito Santo. 

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Era Natal. Esculacho rotineiro em adolescentes mulatos suspeitos de furto na Savassi. Estavam “limpos”. “Desculpaí, mas sabe como é…”, disse o sargento, depois da revista. Área limpa, uma boa alma consola os rapazes: “Eles não podem fazer isso não”. Consolo inútil. A lágrima da humilhação já tinha caído.  

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Havia um mico no meio da Savassi. E o flanelinha do quarteirão esfregou as mãos, decerto imaginando formas de engaiolalo, vendêlo, comêlo, vilipendialo, extorquilo, exterminalo. A vida é dura para os primatas.

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Um verão que se preze começa com vermelhos em profusão. Aceitaremos o verde na condição de coadjuvante.  No Oscar chamam isso de leading role. Deiavm, mesmo não apoiando, ainda assim ilustrará a tese.  

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Tendemos a admitir essa vitrine em Lourdes como a mais sensacional da cidade, por mostrar escondendo e esconder mostrando — princípio da sensualidade. Teremos problemas, contudo, para parcelar o vestidinho no Visa, caso seja o caso. Ou não, dependendo do espírito. Todo vestido é subversivo, colírio antineurose e antimonotonia, donde nosso apoio político — sincero e antecipado.

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Pô. Mudaram a placa do Lua Nova, no 2º andar do Maleta. Já não se respeita nem a própria decadência! Setentistas ofendidos prometem revidar à baixura: passarão essa semana no Xoq-Xoq, no primeiro andar.

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Imagine um terror para sua vida. Neném trocado na maternidade. Sequestro-relâmpago na noite de sábado. Arrastão no sítio. Pedra nos rins. Avião caindo na floresta. Palmito com botulismo. Ossinho de peixe preso na goela. Vamos lá. Eu te digo que nenhum terror é pior do que esse aí da foto: retrato infantil à espera dos lixeiros no Centrão. É uma sentença contrária a toda fé, todos os valores, todos os esforços. Se o lixo é o lugar da memória, findo o carnaval, então os niilistas estavam certos. Depois da morte, a morte.

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