[ polêmicas para não-músicos ]
Findo março, The Chicken Boy nº1 e The Chicken Boy nº2 dividíamos uma dúvida recorrente à mesa dos cafés, a saber: quando é que vai começar o lamentável, o ignominioso 2009?
Veio o Dia da Mentira, e nada. Veio o Domingo de Ramos, e nada. Nothing fucking the pain away.
Pior: será que 2009 já acabou? Sem nem sequer esperar nosso resmungo se aquecer?
Fôssemos alcoólatras, e tudo seria bem mais fácil. Essa dúvida, por exemplo, não teríamos. O dia seria sempre só mais um dia para beber; o ano seria sempre o mesmo ano dos nossos 19 anos — fossem eles bons ou ruins. O ano em que saímos de casa. Ou que nela ficamos presos parassempre.
*
A revista que eu leio diz que a idade mental da Direita é 14 anos. Se religiosa, fervorosa, cai para uns 12. Em meus sonhos tenho quase sempre 20 anos. Essa deve ser minha idade mental. No rádio, Eduardo Bueno — gaúcho notável — insinua que parou nos 18.
Dou-me por vencido e satisfeito.
[ Sete momentos radioheads em nossas vidas ]
1.
1997. A resenha de Zeca Camargo na revista Showbizz ergue osanas e rasgações de calcinha a Ok, Computer, de uma banda que nunca ouvi falar. “Não tem pra ninguém. É o disco do ano. uiuiui etc etc” Até então eu me ocupava com caipirices messiânicas pseudopolitizadas de U2, R.E.M., Cranberries (what?), o espólio de Renato Russo, o mofo adocicado do velho Macca e etc, não admitindo a hipótese de um disco-do-ano muito além dessa laia musical que me era tão querida e familiar. “Estarei sendo tapeado?” — penso com alguma frequência.
2.
1998. Por mero acaso há uma cópia de Ok, Computer dando sopa na Páginas Antigas por civilizados R$ 15. Como de hábito na era pré-Web 2.0, o CD é testado na loja, ouvindo-se uns 10 segundos iniciais de cada faixa. O conjunto é de estranha e benvinda melancolia, tanto o som quanto o livreto que o acompanha, ilustrado com abstrações fantasmagóricas que remetem a uma atmosfera meio onírica, meio urbanoide, meio manicomial, meio MS-DOS. Mais-que-punhetas estéticas. Uma nerdice. Compro o disco, mas deixo-o para depois: guardo aquelas canções para o dia em que me tornasse homem — supondo que tal dia haveria de chegar.
( um parêntese se faz necessário, porque )
[ A rigor, não somos grandes entusiastas do falsete mórbido de Thom Yorke. Falsete nos remete a Bô Lorges e Flávio Ventuinha, a Robert Planta e Ozzy Osborna, caricaturas travecas de décadas sombrias e juventudes oficialmente perdidas. E ademais Jesus dissera, no sermão da colina: "A voz do homem não foi feita para trincar cristais. Nem imitar o berro do cabrito." ]
3.
2000. Vanessa me dá Kid A de presente de Natal. O Natal é bom, o disco também. Eu finjo entender a proposta do disco. Fingimento é um bom início para qualquer projeto humano. Kid A é celebrado como um tapa de luva na cara do universo da música e, querendo-me sócio de tal bravata (e só por isso), tomo partido de Kid A em suas reinvidicações estéticas aviadadas.
4.
2001. Por alguma razão psicótica eu penso na música How to Disappear Completely enquanto vejo as imagens dos corpos caindo junto com as Torres Gêmeas. Kid A é a trilha de uma despedida. No meu caso particular, da casa onde cresci.
5.
2006. Numa loja virtual, compro Hail To The Thief junto com Turn On The Bright Lights, o disco do Interpol de 2002. O disco do Radiohead me soa maçante e agudo, enquanto o Interpol me parece mais acertadamente grave, mais afinado com os mistérios de uma década-sem-mistérios. Como quero sempre o melhor para meus amigos, obrigo todos eles a ouvirem Interpol (os mais sábios me obedecem).
6.
2007. Pago libras esterlinas aleatórias por In Rainbows, no que FH o Lara entende ser um momento histórico da indústria. Pela web leio pragmatas vis reduzindo a História a mera estratégia de marketing. Tal discussão não me diz respeito: nostálgico idiota (pleonasmo?), eu ainda gosto de pagar por culturas que a juventude gafanhota devora web afora.
7.
2009. Estamos nos arredores semirrurais da megalópole, e à falta de vacas e galinhas suponho que o gado sejamos nós. Não vejo Thom Yorke a não ser com a ajuda de telões, e isso me põe dúvida se nosso contato é real. A música, contudo, permite certezas palpáveis: estamos nos braços do nosso tempo, envoltos por nossa geração; e mesmo que tudo ali fosse farsa pasteurizada e induzida (não é), errar junto com velhos amigos ainda seria a coisa certa a fazer. Tão certo quanto voltar pra casa e perceber que a casa não é mais a mesma.
(outro parêntese é necessário, porque)
[os cínicos (mas sempre elegantes) profetas do apocalipse nuclear disseram há 32 anos: "Nós somos os robôs". Nenhum apocalipse chegou de fato e aquelas profecias agora são itens de colecionador. Ou uma abertura adequada para os profetas atuais.]
*
De 1997 a 2009 são 12 anos. Eu fiei a memória musical da minha juventude ao Radiohead e congêneres. Se escolhi isso ou se fui induzido a isso, nunca vou saber.
Dou-me por vencido e satisfeito.
* * *
“Só porque você sente, não quer dizer que está lá.”
There there
*
15 Comentários
Abril 6, 2009 às 2:04 pm
É claro que é uma estratégia de marketing, mas não deixa de ser parte da história. Sem contar o fato de que o disco é bom pra caralho!
n.e.: relax; seus oponentes foram classificados como “pragmatas vis”.
Abril 6, 2009 às 7:43 pm
qual foi o último ano que existiu, com algum significado, para essa vã geração?
se é que alguém se importa.
n.e.: 2002. Reuniões na república para ver debates na TV.
Abril 7, 2009 às 4:36 am
Me prova que não somos robôs que te dou tudo que ganharei este mês com minhas 18h de trabalho diário, consumo diário de álcool e falta de sentido na vida.
É pegar ou largar, beibe.
n.e.: Penso, logo largo.
Abril 7, 2009 às 11:01 pm
Demorô. Voltou galharda e suavemente arrebentando a janela. Se vale minha modesta opinião, acho que o Interpol foi o único grupo que lançou uma bolacha boa de cabo a rabo desde os progressistossauros. E talvez mais do que robôs, sejamos hologramas.
Abril 8, 2009 às 1:11 am
Para variar o blog tendencioso puxa sardinha para o lado do punk…
Pergunta: quem é melhor, Radiohead ou Bad Religion?
“Se eu pudesse voltar à juventude, cometeria todos aqueles erros de novo. Só que mais cedo” Tallulah Bankhead
n.e.: Pergunta pro seu ídalo Vander Lee.
Abril 8, 2009 às 10:36 pm
Tô com Abel. Interpol.
Abril 15, 2009 às 6:10 pm
Músicos podem comentar?
n.e.: Mas…se até comunicólogos podem!
Abril 16, 2009 às 12:33 pm
Então lá vai:
1 – Cramberries, caipirice messiânica pseudopolitizada até vai. Mas U2 e REM? A turnê ZooTV é o que marca o U2 como as celebridades atuais que melhor têm consciência do seu papel social. Quanto ao REM, bom o próprio Thom Yorke disse que OK Computer não teria saído se o Radiohead não tivesse aberto uma turnê para eles.
2 – Música serve menos para conscientizar mentes do que para mexer com os corpos. Esta é a lição que a fábula do flautista de Hamlin nos ensina. A questão passa a ser, em que sentido os corpos são mobilizados…
3 – Desde o lançamento de Kid A, o Radiohead é um caso inédito de banda que respeito pelo que faz, mas não aguento escutar, acho chato. Por isso que o Kraftwerk será sempre mais importante…
ns.e.: 1) papel social de celebridade = marketing pessoal. 2) De acordo, o que nos leva a: 3) ouvir Radiohead mexendo mais copos do que corpos.
Abril 16, 2009 às 5:33 pm
Bom, o dia que isto: http://www.youtube.com/watch?v=UmgYzASFZPU&feature=PlayList&p=94826873AFE81962&playnext=1&playnext_from=PL&index=68, ou isto:
http://www.youtube.com/watch?v=PUDR9RckfEU
forem mero marketing pessoal, fazer política vai ser mesmo só vestir uma camisa vermelha com a foice e o martelo e sair gritando em alto e bom som: abaixo o capitalismo. O que não deixa de ser messiânico.
Quanto aos copos mexendo, bem, um copo só se mexe porque um corpo o mexeu. =)
n.e.: esses ativistas espetaculosos confundem até a indignação.
Abril 18, 2009 às 9:45 pm
É, o requiuplei me rocked
Abril 22, 2009 às 10:40 pm
Eu prefiro gritar abaixo o capitalismo vestindo um trapo preto um A dentro de um círculo.
Maio 7, 2009 às 2:10 pm
já que aqui se conversa em vídeos:
n.e.: agressão gratuita. Eu gosto.
Maio 14, 2009 às 7:49 pm
obaaa
fiquei feliz em saber que vc lembrou do adrian tomine rs
adoro
a cafe vc pode comprar na loja hq mix
na praça roosevelt
mas acho q no site da revista deve ter outros lugares pra comprar tambem.
beijaoooooo e valeuuuuu
n.e. A propósito, bigandlittledreams.blogspot.com
Maio 18, 2009 às 10:13 pm
Quando li esse post pela primeira vez, tinha a mesma impressão: que 2009 não começaria nem sob tortura.
Passado mais de mês, espero que você tenha encontrado a resposta, caso seja isso que você esteja esperando pra escrever novamente.
Nesse tempo, concluí que 2009 é um ano que veio ao mundo a passeio. Um ano picareta, por assim dizer…
n.e.: a casa agradece a releitura.
Maio 19, 2009 às 12:44 am
Então HMilen aposentou seu blog?!
Será que o “capetalismo” subjugou HMilen?
Será o fim da internet?!
n.e.: será que JP não acerta uma?