Maio 20, 2009...4:52 am

Todo caderninho tem seu fim

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José Wilker, certa vez, se deparou com a catedral de Notre-Dame. Pensou:

– Quando essa igreja foi erguida, ainda faltavam três séculos para o Brasil ser inventado. Nós, brasileiros, somos jovens demais para sermos tão angustiados.

Também me deparei com a catedral de Notre-Dame. Estava frio e nada pensei.

(Mas se tivesse que pensar algo seria: “Gostas do delírio, Baby?” Não seria original. Nunca é.)

* * *

(este post não está mal-editado; você é que tá condicionado a estímulo primário)

* * *

Eu, aiatolá

Tejem sumariamente proibidos no meu país imaginário (*):

1) Tráfico e exibição de comédias românticas presbiterianas anglossaxãs. Motivo: apologia desmesurada e inconsequente do casamento religioso. Pena para o traficante/distribuidor: confisco de bilheteria. Pena para o consumidor: milho e confinamento. 

2) Impressos diários. Nem o tédio e a mentira conseguem preencher tantas páginas. Donde perversões fascistas. Pena para o traficante/distribuidor: uma chibatada por centavo arrecadado. Pena para o consumidor: uma chibatada por centavo gasto.  

(*) tem algum que não é?

* * *

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Seguem aqui e ali twittadas 1.0, de papel, mais explicadas adiante.

Twitter, twittocracia, parece fútil, mas é mina de aforismos.

Com aforismos faremos o que fazemos melhor: roubar, guardar, esquecer — nessa ordem.

Gentileza não confundir uma invenção com o uso que se faz dela. O mesmo vale para dramaturgia, automóvel, vodca, sala de estar. 

Enfim: só queria aprender algo com o tuiteiro Mauricio.

* * *

Eduarda Azereda, senador do rico e direitoso Texas, quer moralizar o uso da Internet no país pela via das suas tradições: terror, manipulação, castração.

Sob palminhas de gente velha e murcha como ele.

Assinaturas de repúdio ao projeto empacaram nos 145.000.

É pouco. É vão.

Restará, valha-nos Barbosão!, a Corte Suprema.

*

E, por razões que não cabe aqui enumerar, MV Bill está sendo convocado.

Será macho para se apresentar?

E, na batalha, se insurgirá contra os coroneis?

E — aliás! — a insurreição de um macho quixotesco no cerrado decadente nos será d’alguma serventia?

Problemas para 2011.

* * *

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Dez conversas com Einstein ou um encontro com uma bela garota? 

Albert Camus iria de opção 2.

Porque dois velhos juntos não têm outro assunto que não as ninfas.

* * *

Questões agropecuárias 

Scheila (sic) Carvalho tem um bom pacote; belo exemplar balzaco.

Tem jeito de quem põe feijão em cima do arroz e engrossa a mistura com macarrão.

A fotógrafa da Playboy a enfiou dentro de uma boleia de caminhão. Misancene adequado, apesar de cruel.

(não reproduziremos fotos em respeito a leis vigentes)

No mês seguinte veio a loira siliconada do BBB. Sem mistérios, sem encantos. Obviedade para escriturários.

Além de um par de seios, como direi…, estrábicos?

(não reproduziremos fotos em respeito a leis vigentes)

E ademais
já não fazem mais verão
mulheres bidimensionais.

(anota o haicai e passa adiante)

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Quem conhece o nome de 3 músicas de uma banda é tido como “fanático”.

A patrulha da superficialidade.

Qualquer imersão é taxada de nerdice, de alguma-coisa-ismo.

Quem for macho, que imerja (do verbo “imergir”).

Glub glub glub

* * *

Proclamei — para os devidos fins — O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca, o livro da minha geração.

E fiz isso sem ter lido um livro de Daniel Galera ou Santiago Nazarián, o que, claro, configura Leviandade.

Mas em literatura sempre é tempo de rever proclamações.

Tempo que não nos falta, embora inventemos a falta dele para literatura.

Minha questão, contudo, é a mesmíssima de 2003: não sei se tenho raiva ou dó de um brasileiro que nunca leu nada de Jorge Amado (“comunista!”), Drummond (“comunista!”), Graciliano Ramos (“comunista!”).

Cada dia sem conhecimento é um dia de estupidificação.

E a gente é roubado todo dia.

* * *

[ Simpsons, take 9117 ]

Bart, vendo um filme bíblico:

– Eu gosto do jeito que Deus resolve as coisas.

Homer:

– Ele é meu personagem de ficção favorito.

[ Simpsons, take 10125 ]

O professor de balé, sobre a apresentação da bailarina Marge:

– Inteligente demais para a ralé; fraco demais para os cultos. É uma pena.  

* * *

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Certas Brigittes (uma aqui, outra ali)

Talvez nenhuma mulher tenha irritado as mulherzinhas do século 20 quanto aquela Brigitte Bardot filmada por Vadim e cantada por Caetano. 

Porque, noves fora tudo, ela ainda se mostrou mais inteligente que bonita, já em 196o, disparando frases de efeito desconcertantes em entrevistas ao vivo.

Não fosse mais inteligente que bonita, de fato não sobreviveria ao kit {superexposição d’imagem + depressão d’espírito} que aqueles anos lhe trouxeram.

Em 1982 pôs a vida no prego para financiar um ideal político altruísta. E se mostrava mais generosa que inteligente. 

Em 1996 ela se revelava ligeiramente fascista, ou seja, uma velha normal.

Jesus Cristo, Frei Caneca, John Lennon, Pagu, Leila Diniz e Cazuza foram vanguarda a vida inteira. Tiveram aquela sorte que cabe aos eternos: seus corpos morreram antes que seu pensamento morresse. 

“A espécie humana é um horror”, sentencia essa Brigitte de hoje, depois de desfrutar dos exemplares que lhe pareceram mais interessantes. E apertado a mão de presidentes, ministros e o Papa. Hoje mantém-se estável com um consiglieri da extrema-direita francesa.

Diz identificar-se com animais por sentir-se caçada e indefesa como eles. Para eles dá o que tem — algum dinheiro, algum prestígio. Mas essa mesma mão que acariciou o bebê-foca no Canadá não resistiu à tentação de apedrejar minorias humanas na França.

A miséria não a comove. 

“Nenhum ser humano, por mais pobre que seja, vai para o abatedouro.”

Uma frase de efeito típica de quem tem mais raiva que lucidez.

Respeitaremos Brigitte por sua coerência: jovem, não traiu a juventude. E velha, condiz com a velhice.

* * *

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Las tres Gracias, tela de Rubens, pode ser vista em detalhes cândidos (a.k.a. ultra high resolution) na página do Museo del Prado.

* * *

>>>> Quando estou por aí, antenado-desconectado, anoto ideias no caderninho que sempre me acompanha. O que comecei em 2007 chegou ao fim esses dias. O caderninho esteve num metrô, numa balsa em alto-mar, num avião, numa torre, num supermercado, numa festa, numa cama, numa missão secreta e na sarjeta. Seguem trechos coletados sem muito critério. 

notas de um caderno que chega ao fim ]


Networking no mictório:

– Vê se não mija em mim, aí.

– Calma. É grande, mas eu tenho controle.

*

“O chute certo. Só faltou acertar.”

Júnior, comentarista de futebol

*

“Típico de intelectuais. Egoístas, mas cheios de piedade.”

– do filme A Noite

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Raspa a garganta e cospe na calçada limpa. Senhor de idade branco e bem-vestido.

– microconto para um microconcurso

(…) O pensamento catastrofista não leva a nada. Mas a catástrofe faz emergir sinceridade. (…) Se o LHC der pau, não teremos tempo de ser sinceros. (…)

(medinho do fim do mundo)

honra às 4 da tarde/

Frenesi na Rua Goitacazes. Trabalhador parrudo persegue brasileirinho esquálido e marrom. Sacoleiras vespertinas se agitam. “Tomara que pegue. Tomara que pegue e dê muita porrada.”

Na ponta do quarteirão o caçador desiste da caça e dá meiavolta.

“Levou o quê?”, pergunto desperguntando.

“Não conseguiu levar nada, não.”

*

midiádromo/

(…) as empresas jornalísticas e os cursos de jornalismo, somados seus esforços e interesses, lapidaram um jornalista intelectualmente submisso e culturalmente nulo. (…) O jornalista intelectual, que reinterpreta o país e sua realidade, que liga causas a efeitos, que lê documentos, releases e etc criticamente, é tão raro que resolvemos chamá-lo muy sacanamente de “falha do sistema”. (…)

*

“Você conhece William Faulkner?”

“Não, quem é? Você dormiu com ele?”

“Não, meu querido.”

“Então não me importo com ele. Tire a roupa.”

(nouvelle vague)

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attention, please/

“The visual and sound caracteristics of this work can represent a risk for epiletic visitors.”

– à entrada de uma exposição futurista

*

Generalização moleque no Pompidu/

uma coisa que nunca entendi em pintura é: por quê grandes mestres têm uma vida tão devassa e suas obras são expostas em ambientes tão assépticos?

*

Generalização moleque no Campo dos Inválidos/

uma pessoa que acredite na miséria e no sacrifício não pode se dar o luxo de um gesto nobre — mesmo que isso não lhe custe nada.

*

Prezado __________:

Tenho sido péssimo.

Uma frasesinha nos visitou esse verão: “Velhos amigos, amigos não são mais.” Não que deixamos de ser amigos, mas é que aquele adjetivo ali (“velho”) me preocupa, porque tudo que é velho é enviesado e distorcido; tem mais lembrança que sabor.

(…) Como se escravidão fosse desculpa para ausência. Não é desculpa nem para mau-humor, meu chapa, como nos ensina aquele colega — jornada quádrupla e sempre piadas no dia seguinte.

(…) Estaremos juntos no próximo big Bang, ou no último Apagar dasluzes, no Grande Soluço Final, no dia em que seremos enfim inúteis.

Até lá, e além, ou aquém — amém.

do (velho) h. 

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[ fim (fim?) do caderninho ]

*

Hora de partir para um Moleskine. <<<<

* * *

“Onde eu possa mandar meus amigos, meus discos e livros. E nada mais.”
Casa no campo

“I’ll be writing more in a week or two. I could make it longer if you like the style.”
Paperback Writer 

12 Comentários

  • Adorei. Eu também tenho caderninhos, depois jogo tudo fora.

    Era uma vez uns caderninhos.

    n.e.: Tamo junto. Publicar é sinônimo de jogar fora.

  • Muito paradigmático este tópico. Parece até ode à internet…

    Um país imaginário governado por uma ilusão. Ooops, é o Brasil?!

    “Don’t go around saying the world owes you a living; the world owes you nothing; it was here first”. Samuel Langhornne Clemens (Mark Twain)

    n.e.: Ok. Agora repete essa citação. Sem colar.

  • é consolo saber que: se esses que não pagam passagem sem nem pular a catraca começassem a pagá-la, o preço do bilhete poderia cair para 1,70?

    da série dúvidas meio amargas para uma vida meia boca (http://migre.me/1lrt)

  • depois desse tempo todo, só era possível um retorno com post urgente.

    um post que fosse necessário como o ramo central do cabelo de brigitte.

    esses caderninhos existem para ser filtro. o que se registra neles é o que pode ser esquecido, apagado da memória para abrir espaço na cuca e se libertar de idéias inúteis.

    narcisismo barato esse post, a sugerir momentos de inteligência equilibradamente distribuídos no vão cotidiano de h_milho.

    só carulina salva, ao jogar fora seus cadernos.

    caderninhos são baús no sótão. ou no porão.

    esse post é o início do fim do blog. na verdade, esse blog já acabou.

    n.e.: se ninguém refutar, assino embaixo. :)

  • O caderninho de anotações sempre foi uma ressonância e um referencial na vida dos jornalistas e escritores.
    Inaugure agora o seu segundo Cahier.

    n.e.: Jornalista e escritor é castigo demais para a mesma mãe.

  • O fim de um caderninho é o começo de outro de capa nova; não são poucos os que consideram Rubens o maior pintor da História e que o barroco não se explica senão como parte da estratégia da Ordem dos Jesuítas de Inácio de Loyola por ordem de serviço papal para estancar a fuga de cristãos afetados pelo iluminismo, renascentismo e reforma protestante; memória de acesso aleatório (do inglês Random Access Memory, frequentemente abreviado para RAM) é um tipo de memória que permite a leitura e a escrita, utilizada como memória primária em sistemas eletrônicos digitais, apesar do termo ser usado atualmente apenas para definir um dispositivo eletrônico que o implementa, basicamente um tipo específico de chip, ficando implícito nesse caso que é uma memória volátil, isto é, todo o seu conteúdo é perdido quando a alimentação da memória é desligada (Wikipédia).

    n.e.: 1) Michelangelo fingiu-se de bobo e enganou um papa. 2) Um caderninho de papel é mais evoluído tecnologicamente que um smart phone.

  • Para memórias voláteis, post-its (e post-twitts) é o que tá na moda.

    Deu pra constatar aí o quão HM se tornou usuário destes armazenadores de memórias voláteis.

    caderninho novo,
    bloquinho novo tb.

    n.e.: memória volátil, cultura volátil, caráter volátil… :)

  • odisseialiteraria

    Não sei se sua geração é a mesma da minha, mas escolho também O Dia Mastroianni.

    n.e.: tá disponível de graça: http://migre.me/1u9G Pilhem!

  • O fim do caderninho é também o fim do blog?

    Ou haverão outros caderninhos, ou outros blogs, ou ambos?

    De minha parte, estou com você na proibição da praga das “comédias românticas” e dos jornais diários. Pra mim, jornal só devia circular quando acontecesse algo importante. A escalação do América para o jogo da Série C não vale o papel em que será impressa.

    Do lado de cá, substituí os bloquinhos de papel pelo joystick de videogame e obrigações maritais/profissionais. Será que o mundo perdeu alguma coisa? Duvido muito.

    Grande abraço.

    n.e.: não é que chegou ao fim. É que ficou old-fashioned. Precisamos de um banho de loja.

  • Para seu caderninho, esta preciosidade: Deep Purple & Luciano Pavarotti cantando Nessun Dorma:

  • se for rolar banho de loja, voto no cachecol.


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