(A)
Sinto-me compelido ao trabalho literário:
pelo desejo de suprir lacunas da vida; (…) pela falta de tempo e ideogramas chineses; pela minha aversão à tirania – manifesta ou subdola –, à guerra, maior ou menor; pelo meu congênito amor à liberdade, que se exprime justamente no trabalho literário; pelo meu não-reconhecimento da fronteira realidade-irrealidade; pelo meu dom de assimilar e fundir elementos díspares; pela certeza de que jamais serei guerrilheiro urbano, muito menos rural, embora gostasse de derrubar uns dez ou quinze governos dos quais omitirei os nomes: receio que outros governos excluídos da minha lista julguem que os admiro, coisa absurda; porque sou traumatizado pela precipitação diária dos fatos internacionais; por ter visto Nijinski dançar; pelo meu apoio ao ecumenismo, e não somente o religioso; por manejar uma caneta que, desacompanhando minha ideia, não consegue viajar à velocidade de 1.000 quilômetros horários; pelo meu ódio físico-cerebral ao fascismo, ao nazismo e suas ramificações; pela tendência a preferir Aliocha a Ivan e Dimitri Karamazov; porque dentro de mim discutem um mineiro, um grego, um hebreu, um indiano, um cristão péssimo, relaxado, um socialista amador; porque não separo Apolo de Dionísio; (…) por julgar os textos tão importantes como os testículos; por sofrer diante da enorme confusão do mundo atual, que torna Kafka um satélite da Condessa de Ségur; pela minha tristeza em não poder conversar esquimaus e mongois; pela notícia de que Deus, diante da burrice e crueldade soltas, demitiu-se do cargo de administrador dos negócios do homem; pelo charme operante das cabeleirosas e das pernilongas, das sexy a jato e das menos sexy a tílburi; pela fúria galopante dos quadros e colagens de Max Ernst; pela decisão de Casimir Malevich, ao pintar um quadrado branco e campo branco; (…) pelo meu amor platônico às matemáticas; (…) pelo meu não vertical às propostas de determinados apoetas e impoetas no sentido de liquidação da poesia; pelas minhas remotas e atuais viagens ao cinematógrafo; porque temo o dilúvio de excrementos, a bomba atômica, a desagregação das galáxias, a explosão da vesícula divina, o julgamento universal; porque através do lirismo propendo à geometria.
Murilo Mendes, Roma, 14/2/1970.
(Transístor / Poliedro / Microdefinição do autor)
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O blog fecha para balanço contábil. Toda nossa mercadoria se encontra estocada e organizada ali na (novíssima! e sem nenhuma novidade…) seção Queima de Arquivo.
Reabriremos com liquidações de verão.
Pelo interesse e pela fidalguia, a casa agradece a todos.
Até






Após a leitura barrista, o fechamento para balanço.
Blog de pessoa “winwendersiana” é assim: começa destroçando a boca do balão; depois tem os momentos pseudo depressivos; por fim termina como uma chama de fósforo promocional (de motel?)…
HMilen é vítima do mal do século XIX!
* bairrista
Para todos os efeitos, barrismo era melhor que bairrismo.
ah, fecha não. deixa sem balançar mesmo.