Sem grande missão aos clarões do dia.
Sem grande projeto para o ano que corre.
Outro dia tateando outras formas de viver.
Outro dia vivendo a vida que todos vivem.
O caminho da psicanálise, da causa e do efeito.
O caminho da superstição, da macumba e do medo.
Um certo fastio da razão.
Um certo desdém pela luta.
Algum remorso pelos papeis guardados.
Alguma raiva pelos brinquedos perdidos.
Certas tardes de vaidade e criação.
Certas noites de pacífica solidão.
Enquanto chegava a conclusões antigas.
Enquanto chegava a lugares comuns.
“Bom” — comparado a algo muito ruim.
“Ruim” — se comparado a algo muito bom.
Quase não se importar com o que dizem.
Quase não se importar com o que sentem.
E assim abraçar amigos pelo computador.
E assim gozar amores pelo retrovisor.
Por vezes ter se afogado, sentido as forças minguarem.
Por vezes ser beijado por ondas, o planeta te fazendo carinho.
Os filmes bobos de domingo, que matavam a imaginação.
Os filmes chatos de terça, que mataram a ilusão.
Ouvindo música onde não havia canções.
Ouvindo o silêncio onde gritavam sermões.
Receio de não ter dito tudo que devia.
Receio de que tudo se perdesse no dizer.
Contudo sonhar sonhos repetidos.
Contudo sonhar sonhos vãos.
As prisões em cidades amenas.
A fuga para frios litorais.
O desejo insistente.
A saudade insistente.
Ninguém na despedida.
Ninguém na chegada.
Escrevendo dísticos desconexos.
Escrevendo grunhidos resmunguentos.
Adiante, aquarelas imaginadas.
Adiante, musas que vêm e vão e nunca são.
A serenata que ninguém ouviu.
A polícia que não será chamada.
Aguardando uma senhorita na calçada.
Guardando o beijo e o perfume do fim.
Enquanto chego a conclusões antigas.
Enquanto chego a lugares comuns.
