Existia um negócio chamado Twitter, no qual se tuitava.
As melhores tuitadas eram as de natureza sombria, sarcástica e censurável. Proibidonas. As que faziam jovens mães corarem e velhos abdomens te espancarem na padaria. Ou, ainda mais grave, te darem unfollow.
No máximo, publicava-se algo assim:
“Essas moçoilas que cuidam dum cão macho deviam entender algo sobre a sexualidade masculina. Mas nem assim elas aprendem.”
…e, mesmo assim… captado pela antena alheia, roubado da cabeça alheia, nesse afunilamento global dos pensares e dos pesares; e mesmo assim deletando-se logo depois.
“Se não é para ser um exercício de liberdade, melhor nem existir” — assim falava o flanelinha.
Twitter, coitado, não trazia a salvação contra o tédio. Donde os desencantos. Mais parecia o mensageiro do tédio em tempo real. (São questionáveis os prós da instantaneidade.)
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Seus seguidores são seus inimigos. Vejam o caso de Jesus.
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Daí religiosos desmoralizando a religião, republicanos desmoralizando a república, escritores desmoralizando a escrita, amantes desmoralizando o amor.
Não se tem elegância. Os infelizes acham que ter razão é o suficiente.
A idade da razão é 16 anos.
Tem razão demais na praça.
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Sem ofensa. Nada pessoal.
A gente fala da vida, do universo e tudo mais e sempre tem um caipira que acha que a coisa é pessoal.
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Em cartaz, no cinema do shopping: “Dupla Implacável”.
O que vem a ser “implacável”? Um veículo com IPVA vencido?
De onde vêm as palavras vazias que enchem tantos cartazes?
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O ideal é que ninguém tenha mais ideia nenhuma.
O ideal é que enforquem o Pensamento, numa cerimônia com música ruim e mecânica. E que o governador inaugure uma estátua em memória do Pensamento, no trevo de acesso para a cidade-dormitório.
O ideal é que o todo mundo tenha seus dias de ditador, e depois seja defenestrado do Poder; e depois venha me cantarolar Noel Rosa ao telefone, com a voz embargada, à maneira do general da reserva.
O ideal é que o mendigo que habita discreta ou pornograficamente cada ego do planeta me cantarole Noel ao telefone às duas e trinta e cinco da matina.
(O ego destruído é a lição que não se esquece.)
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E o heroi dos filmes de ação, fora de ação, era vilão. Traficava mulheres. Empreendedor.
O bom chefe de famiglia é assim: diversifica seus ativos.
Arte, filosofia e verdade não enchem barriga, disso se sabe.
Assim grunhiam os redneques, eternos inimigos dos bitniques.
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Os redneques venceram os bitniques no filme de 1969. Explodiram a Harley do bitnique. Foi bom. Quando o Mal vence o Bem na ficção, o Pensamento reage no real. O revés na ficção contribui para melhorias no real.
Porém quando o fictício heroi de merda derrota o Mal, o Pensamento sai de cena, sai de mansinho, finge que não é com ele.
(O Pensamento era um cara tímido e discreto, só entrava na conversa se fosse convidado.)
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A violência é tão fascinante, e nossas vidas são tão normais.
Baader-Meinhof Blues.
(Todos suicidados na prisão de um país ocidentalmente evoluído.)
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Há três anos vendeu certos princípios por R$ 2.000.
Semana passada vendeu outros por R$ 400.
O problema de trocar princípios por dinheiro é esse: o preço vai só caindo, caindo…
(Todo mundo se acha um grande depósito de bons princípios, daí a comum suposição de que pode negociar alguns.)
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Não foi expressamente dito, mas… O texto aqui era para ser lido ao som de uma taça de vinho.
Desrolhe um fucking merlot — futuramente — e volte ao início do texto.
Sê cordial com quem te agride e debochado com quem te afaga.
Demonstrai, senão compreensão, o delírio de compreender.
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Vinicius disse que o uísque era o cachorro engarrafado, por fiel amigo do homem.
O vinho é um gato engarrafado, pois. Ele se apega à casa, não ao dono.
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O gato gordo e calmo que nos fitava de cima duma mureta no vingtième.
Saudações, gato gordo e calmo.
Seus primos magrelos e estressados te mandariam alôs daqui dos trópicos.
Se já não tivessem virado tamborim ou algo assim.
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Uma prosa tão prolixa não pode ser confundida com poesia.
Ufa!,… tá tudo bem.







