Possuir livros

Irritando trabalhadores com esse fetiche da burguesia decadente

Um cara esquisito da vizinhança mantinha secretamente hábitos excêntricos: ajuntar papeis. De tal modo que em sua residência houvesse sempre mais papeis do que espaço para guardá-los. A mania ia além dos limites aceitáveis da sociabilidade e o quadro patológico já incluía, dentroutras aberrações, não ter licença de habilitação para automóveis, não possuir aparelho televisor no meio da sala — e em nenhum dos quartos –, e não ser mutuário da Caixa Econômica Federal.

Contudo eram tempos de paz (ou entreguerras, nunca se sabe) que se vivia, e nenhum fariseu haveria de arrombar sua porta no irromper da aurora, pichar seu muro com termos antissemitas, queimar-lhe os objetos na pracinha com crianças ribeirinhas analfabetas dançando sobre as cinzas, espetar sua cabeça exemplar na entrada da cidade… Enfim, esses finos e civilizados hábitos europeus.

Enquanto novos integralismos não eclodiam, bastaria ao mancebo pagar as contas em dia para poder-se desfrutar dalguma heterodoxia, sem terrores policiais e paternais. Dias de paz nos quais se ignorava Nietzsche:

“Em tempos de paz, o homem guerreiro volta-se contra si mesmo.”

Questões para depois (quase sempre).

*

Havia o caso de Borges, o escritor reaça argentino.

Uma das muitas lendas graciosas que corriam a seu respeito dizia que, nos últimos anos de vida, depois da maldita catarata ter-lhe devorado o condão da leitura, ele ainda se apegava a seus milhares de livros. Uma reladinha num Homero pela manhã, um Joyce servindo de travesseirinho na siesta.

Borges apreciaria a companhia dos livros mesmo que não pudesse lê-los. Sentir-se gravitado por objetos amigos lhe trazia bem-estar. Certamente algo muito mais agradável do que definhar numa enfermaria com perfume de éter.

(o maior escritor argentino apoiou o golpe no Chile, maior desgraça da história do continente; o maior escritor brasileiro fundou a Academia Brasileira de Letras, talvez a segunda maior. O duelo é de gigantes!)

*

Há também o caso crônico do mendigo que acumula publicações impressas desde que sua pobre mãe o ensinou a ler, há um par de décadas. Pedagólgotas supunham que o mendigo aprendera a ler e a conjugar verbos com mesóclises numa escola pública estadual durante as gestões de Hélio Garcia (risos) e Newta Cardoza (risos, risos até acabar o fôlego e morrer asfixiado). Porque hoje, claro, tudo mudou.

Os impressos (revistinhas, álbuns de figurinhas, livros), adoráveis companheiros da infância, ao longo dos anos roubariam da casa do mendigo o espaço que haveria de ser ocupado por eletrodomésticos de última geração, televisores de tela fina, automóveis e até cônjuge (“ou eles ou eu” é uma frase recorrente aos ouvidos de mendigos ajuntadores compulsivos).

Enfim, tudo o que materialmente faltava à casa do mendigo, dum certo ponto de vista do consumo padrão, havia sido investido em vulgatas editoriais com ISBN e tamanhos e gramaturas ao gosto de seus publishers. O mendigo não sabe ao certo o que perdeu e o que ganhou com essa escolha, tampouco se foi investimento ou jogo de azar.

*

[ Bom, essa era a parte pedante e pretensiosa, que não tivemos tempo de editar (távamos numa rodovia pela manhã. Ainda temos alguma vida social, caraia!). A parte melhorzinha começa aí embaixo ]

*

“Você já leu todos esses livros?”

A alta incidência dessa pergunta — e suas variáveis –, entre as boas almas que adentram a residência do mendigo bibliófilo engendra, senão conjecturas sociológicas, o escárnio deliberado.

Não, cacilda, esses livros não vão ser lidos. Nem queimados. No máximo, admitiremos o anacronismo de uma biblioteca doméstica nos dias que correm.

Imaginando respostas para a pergunta aí de cima, que chega em tons variados (do deboche à incredulidade, passando pelo ódio e pela piedade) condensemos as mais cretinas aqui neste FAQ às avessas, aos moldes do que o grande Al Jaffee fazia na revista MAD (adivinhe: um impresso).

Afinal, maldito desertor das lutas operárias!
Afinal, maldito zombador de toda autoridade constituída,
Afinal… você já leu TODOS esses livros?

- Não, livros não existem para serem lidos. Só servem para irritar quem detesta livros.

- Não, estou guardando para o inverno. Livros queimam mais rápido que lenha.

- Li só os piores. Tenho medo de ficar sem assunto em churrasco se ler os melhores.

- Não, na verdade uso livros para fazer churrasco. Papel é mais barato que carvão.

- Sim, mas fumo maconha e esqueci quase tudo.

- Não, apenas trafico livros, porque eles foram proibidos desde que Luciano Huck foi eleito um exemplo de conduta.

- Não, uso-os como peso para o vento não arrastar as estantes.

- Não, mas o lixeiro se recusa a recolher esse lixo.

- Sim, uso-os como remédio para insônia. São mais eficientes que tranqüilizantes.

- Não, peço alguém para ler para mim antes de dormir.

- Não, mas os preparadores e revisores das editoras leram.

- Não, mas todo homem tem seu vício e, em vez de cheirar cocaína, eu cheiro livros.

- Não, isso aí é ração. Sou um criador de traças em cativeiro.

- Sim, li todos, mas deixo-os aí pelo prazer de oprimir quem nunca leu nenhum.

- Não, só vejo as figuras.

- Não, são de um professor universitário que deu um calote na praça, fugiu para o Tocantins e pediu para guardar essa tralha até o crime dele prescrever.

- Não, são do goleiro Bruno. Ele pediu para guardar aqui porque na cela do Siape não tem espaço.

- Sim, mas seria mais proveitoso ter aprendido HTML-5, a única coisa que realmente garante emprego a jornalistas no século XXI.

- Não, uso só para impressionar as funkeiras da baixada. Elas não resistem a uma lombadinha com capa dura.

- Não são livros, são descansos hipsters de panelas, você não percebeu?

- Não, leio só uns três por ano. Pretendo viver 637 anos.

(…)

*

Não amaremos os livros como Borges amou; e, trabalhadores comuns que somos, preferiríamos um ovo frito à leitura de qualquer clássico do Ocidente (numa medição imaginária das nossas satisfações com coisas que este mundo nos oferece).

*

Belo Horizonte, cidade de muitas e boas bibliotecas, vê coleções inteiras jazendo intactas nas prateleiras de algumas faculdades. Muitos volumes só foram manuseados uma vez: no momento em que um funcionário os cadastrou no banco de dados.

Sejam públicas, sejam privadas, sejam domésticas, as bibliotecas andam em baixa no país das emergências. Se é que podemos usar a palavra “crise” (grandiosa palavra que pouco nos diz), ela não é de livros nem de bibliotecas: é uma crise de leitores. Crise de gente amiga dos livros, de gente que curte ser gravitada por eles.

Mudemos esse quadro trazendo os livros para nossa casa. Tê-los por perto é tão ou mais importante do que lê-los.

(texto originalmente publicado em Ah! Cidade, em 27/3/2011)

Comentários desativados

Arquivado em cronica

Os comentários estão fechados.